Eu Já Estive Em “Sol e Solidão e Copacabana – Volume 3”, de Aliel Paione

A indecisão do protagonista João Antunes por quem seria a dona de seu coração após a morte de sua esposa, Ester, e muito contexto histórico da época de Getúlio Vargas permeiam a obra Sol e Solidão em Copacabana – Volume 3, último livro da trilogia que traz como protagonista João Antunes, escritos por Aliel Paione.
A escrita de Aliel Paione é poética, mas para as pessoas que decidem, como eu, ver a indecisão de João Antunes sobre com quem vai ficar seu coração, transforma a poesia em um livro de terror. Ele não toma atitudes, deixa a vida levar seus sentimentos por Verônica, a mãe, e Henriette, a filha, e se não bastasse, surgirá uma terceira peça nessa história para emaranhar ainda mais o coração dele e os nervos dos leitores.
Permeando toda essa indecisão, a história traz muito contexto histórico. O volume 3 se passa boa parte do tempo no Rio de Janeiro, com Getúlio Vargas no poder e depois segue para os tempos de ditadura. Temos Elisa, a filha de João Antunes, presente na trama e aqui algumas cenas com a postura do protagonista me tiraram do sério, como quando ele começa a se agarrar com Riette na sala, na frente da filha, a ponto da filha se sentir deslocada e voltar para casa. Ok, Elisa não é mais uma criança, já está indo para a fase adulta, mas, enfim, não consigo imaginar meu pai aos amassos no sofá 😊
Os personagens que mais gosto estão em Minas Gerais, atual residência de João Antunes: Rita Rosa, que o ajuda nos afazeres da casa e Boccacio, o papagaio desbocado que fica mudo (nem o papagaio aguenta) com a indecisão de João Antunes. O autor, Aliel Paione, nos conta que já passou por uma situação semelhante, não sabia se gostava, se não gostava, e acredita que trouxe um pouco dessa insegurança para o personagem.
Ainda sobre as referências que o autor traz na obra, deixo aqui a cidade de Congonhas, em Minas Gerais, e as obras de Aleijadinho, Lábios que Beijei, de Orlando Silva, a Revista Cruzeiro, Museu Imperial de Petrópolis e muito, muito Copacabana. E uma curiosidade aleatória que deixei anotada para aprendizado: a instalação de aparelhos de ar-condicionado se intensificou no final da década de 30 no Rio de Janeiro.
Vamos a alguns trechos do livro:
“Verônica, não posso lhe negar que sua presença ao meu lado afaga a minha vaidade. Eu estaria mentindo se lhe negasse esse fato, mas isso é secundário, é uma emoção sem importância se comparada ao meu amor por você…”
“Agradá-los para sermos bem aceitos e nos sentirmos contentes conosco mesmos. Somos vários e nos exibimos de maneira ainda mais variada em cada situação… dentro do nosso único eu, que julgamos erradamente único. Eventualmente, a fantasia cai e o rei fica nu, mas porque não fomos bons atores…”
“Ora, João Antunes, você não mudou nada, sempre com essa sensibilidade excessiva e inútil. Já lhe disse certa vez que isso só lhe prejudica…”
“Entretanto, se os ricos são respeitados, somos nós, cidadãos comuns, que lhe outorgamos essa respeitabilidade, porque, sem nossa admiração, não existiriam a vaidade e a presunção que ostentam.”
“… a vida é bela enquanto houver alguém em busca do amor.”
“… a beleza física encanta, mas só ela torna as pessoas tão vazias como os homens que conheci.”
“Mas sou feliz porque os sonhos estão vivos e o entusiasmo para realizá-los é o que nos traz felicidade.”
Sinopse: Este terceiro volume da trilogia (depois de “Sol e Sonhos em Copacabana” e “Sol e Sombras”) exibe duas novas personagens: Elisa e Amandine, tão instigantes quanto as já conhecidas nos dois volumes anteriores. Outras coadjuvantes gravitam em torno delas, formando um caleidoscópio de personalidades fascinantes. No primeiro livro, sobressaíram-se o diplomata Jean-Jacques Chermont Vernier, a belíssima Verônica e sua filha Henriette, madame Louise, proprietária do cabaré Mére Louise, e o senador Mendonça. No segundo livro, outro personagem, João Antunes (profundamente complexo e de uma sensibilidade quase mórbida), integra-se à vida e à trajetória de Verônica e de sua filha Riete, bem como à de Marcus, vítima trágica de um cruel preconceito. Talvez este segundo volume constitua um mergulho hesitante e sombrio entre o primeiro livro e o desfecho da trilogia, realizada neste “Sol e Solidão em Copacabana”. Há, porém, um fio condutor que perpassa sutilmente a narrativa do romance e torna-se o seu objetivo: a tentativa superficial de associar metaforicamente e de modo agradável os reveses da história brasileira às vidas dos personagens. Transformar suas vicissitudes, seus sofrimentos intensos e frustrações pessoais em nossos entraves históricos; agregar as suas vãs buscas de felicidade e de realizações pessoais às suas vidas dúbias e contraditórias, e juntá-las, transformando-as em algo único, similar à nossa dificuldade de entender o Brasil (ou de nossa vontade, sempre fracassada, de que ele fosse melhor para todos). Assim, as personagens existiram com esse mero desígnio, complexo e cheios de obstáculos, como decorre a história brasileira. Afinal, por que um país tão belo e exuberante, como a linda Verônica, insiste em nos frustrar? Os sonhos e fracassos desses personagens simbolizaram esse desejo.
Sobre o autor: Aliel Paione é engenheiro e mestre em Ciências e Técnicas Nucleares pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde lecionou no departamento. Trabalhou com salvaguardas nucleares na estatal Nuclebrás, localizada no Rio de Janeiro (RJ), e foi professor de Física na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). É autor de “Sol e Sonhos Em Copacabana”, “Sol e Sombras”, e nos presenteia com seu último volume da trilogia, “Sol e Solidão em Copacabana”. A pedido do consulado dos Estados Unidos, em São Paulo, foi feita a requisição da presente trilogia para que passasse a integrar o acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em Washington.
A trilogia é composta por: Sol e Sonhos em Copacabana – Volume 1, Sol e Sombras – Volume 2 e Sol e Solidão em Copacabana – Volume 3. Ambos podem ser lidos separadamente, mas é muito mais interessante ter todo o contexto de todos os volumes. Inclusive, eles são bem distintos, mesmo com personagens em comuns. Todos os volumes estão disponíveis nas plataformas de e-commerce. Sol e Solidão em Copacabana, especificamente, tem 456 páginas e foi publicado pela editora Pandorga. Nós lemos o livro em leitura coletiva promovida pela LC Agência.
Janaína Leme
@eujaestiveem