Eu Já Estive Em “Ébano sobre os Canaviais”, de Adriana Vieira Lomar

Dessa vez fomos selecionados para ler a obra vencedora da 7ª edição do Prêmio Kindle de Literatura 2022 e aqui estamos nós para falar sobre “Ébano sobre os Canaviais”, segundo romance de Adriana Vieira Lomar, em leitura coletiva organizada pela LC Agência de Comunicação.
O livro é dividido em três partes e, a princípio, em três histórias. José, o Peregrino, 15 anos, sem documento, viaja de Portugal para o Brasil com um único amigo que faz na embarcação, Antonio. Destino, Recife, 1864. A mãe de José morreu recentemente e ele deixou o pai lá em Portugal para tentar ser alguém aqui no Brasil. Algo vai acontecer para colocar Henrique, Sara e Marina na vida de José.
Partimos para a Bacia do Congo, aí conhecemos Chisulo, Shakina e, um pouco depois, Ébano, entramos em contato com a escravidão, o trabalho na casa dos colonos, cuidar de crianças dos patrões, abusos sexuais, ser permissiva para sobreviver entre outras questões. Ainda na primeira parte temos a história de Maria Antonieta, que está passando por uma separação que vai desestruturar sua vida, em especial a financeira.
As histórias vão se cruzar, mas até que isso aconteça vale destacar os muitos pontos da trama que me chamaram a atenção:
– O descaso com o saneamento, com os dejetos sendo despejados no rio Capibaribe a céu aberto carregados em cabungos – barris de madeira, não se preocupando com possíveis doenças. Com isso veio a cólera, que matou muita gente, já que em qualquer chuva que o rio viesse a transbordar, todos eram contaminados.
– Você trabalha para a família, é bem tratada na casa, mas tem que omitir isso, principalmente quando o casal dono da casa recebe visitas, para que o casal não seja questionado por tratar um “empregado” bem.
– José também tinha que se esquivar de questões sobre sua nova família porque não tinha documentos e isso podia privá-lo de sua nova condição no Brasil;
– O Tráfico de negros e como lidar com navios de mulheres e crianças que vinham de Portugal. Essas mulheres não tinham profissão, iam se tornar escravas ou prostitutas e as crianças compradas para crescerem nos engenhos. Havia pessoas tentando evitar que os navios saíssem de Portugal, mas já era tarde demais.
– Manipular as pessoas usando suas vulnerabilidades.
– O racismo além da escravidão, já que estamos falando de uma mulher preta, livre, mas que não pode estar a frente de seu próprio negócio porque isso é uma afronta aos demais brancos que vivem na mesma cidade que ela.
E o que mais me chocou mesmo foi essa parte: você tem sua liberdade e não pode exercê-la porque os demais acham que você não é digna de ser livre porque você é preta. Além disso, ter que estudar e ir atrás de conhecimento para ver o quanto as pessoas que deveriam te defender legalmente realmente estão te defendendo, porque você pode ser enganada a todo o momento, já que pessoas pretas não deveriam ter os mesmos direitos, a ponto de você ter que renunciar ao amor de um filho para que ele possa ser feliz por não ter uma mãe preta por perto.
Então, se algum desses pontos fez você refletir, um pouquinho que seja, bora ler “Ébano sobre os Canaviais”, de Adriana Vieira Lomar.
Alguns trechos da obra:
“Na casa-grande, não tinha hora para dormir. Acordava antes de todos, cozinhava, servia e se mantinha em pé na cozinha. Quando lavava a louça, permanecia atenta para não quebrar nada, instruída pela surra que a antiga cozinheira levara.”
“Ainda não estás doente, e bem podes ficar. Se adoeceres, perderemos a continuidade do nosso nome. Vai e não olhe para trás. Vai, com sorte. Terás vida longa, meu filho.”
“A escravidão, apesar de persistente, não erra, a princípio, alimentada pela vinda de escravizados em barcos. Os navios negreiros estavam proibidos de cruzar o Atlântico desde 1850.”
“Estava observando a dança e vendo o quanto eram intensas a música e a movimentação das crianças negras. A dança era dividida entre mulheres virgens e não virgens, isto é, as casadas ou as que tinham sido abusadas.”
“A vida por lá é bem mais tranquila, pensou, acompanhando a fantasia da maioria dos brasileiros descontentes que supõem que viver em outro país seria mais fácil.”
Sinopse: Em seu segundo romance, Adriana Vieira Lomar compõe a saga de uma família multirracial em meio ao preconceito e de suas reverberações estruturais na sociedade brasileira contemporânea — Livro vencedor da 7ª edição do Prêmio Kindle de Literatura 2022. Fins do século XIX, José, 13 anos, foge de Portugal, então assolado pela peste, e chega ao Recife. É adotado pelo cônsul Henrique e sua esposa, Sara. Termina seus estudos e se torna caixeiro viajante. Apaixona-se por Ébano, alforriada, filha da escravizada Shakina. Da união, nasce Zeca. Pressionada pela sociedade, Ébano renuncia à maternidade e José foca na educação do filho e nos negócios até que, na maturidade, se envolve com a filha de uma baronesa e termina seus dias como um rico comerciante. Enquanto isso, Ébano traça sua jornada pessoal longe do filho e de sua ascensão social como proprietário de um engenho de cana de açúcar. Passado o tempo, século XXI, Maria Antonieta, racista, desconhece seus verdadeiros antepassados, pensa ser descendente de uma baronesa e de José. Ao se ver só, separada do marido provedor, trilha uma jornada de autoconhecimento culminando na descoberta de sua verdadeira origem. Com uma prosa envolvente e sensível, Adriana expõe um belo relato sobre preconceitos estruturais que moldaram a sociedade brasileira.
Sobre a autora: Adriana Vieira Lomar (1968) é carioca, tendo passado parte da infância e adolescência em Maceió. Integrante do grupo literário “Caneta, Lente & Pincel”. Pós-graduada em Arte, Pensamento e Literatura Contemporânea e em Roteiro para TV, cinema e Novas Mídias pela PUC-RIO, autora de “Carpintaria de sonhos” (poemas), “Aldeia dos mortos” (romance) e “Corredor do tempo” (novela), ambos pela editora Patuá; de “Ambiguidades” (editora Penalux) e do romance “Ébano sobre os canaviais”, ganhador do prêmio Kindle 2022 em parceria com a editora José Olympio. O romance “Aldeia dos mortos” foi apontado como um dos vinte melhores romances de 2020 pela Revista Literatura e Fechadura e apontado como “os melhores livros e resenhas de 2020” nos blogs: “maeliteratura” e “mundo de K.”.
“Ébano sobre os canaviais”, de Adriana Vieira Lomar, foi publicado pela editora José Olympio, tem 190 páginas e está disponível no formato impresso, digital e em audiolivro. Também está incluído entre os conteúdos disponíveis no Kindle Unlimited.