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Lido 2026: Quando o processo me pegou pelo braço, de Tati Riceli

Tem livro que a gente lê, fecha e pensa: “ok, gostei”. E tem livro que pega a gente pelo braço — literalmente — e nos obriga a olhar para coisas que vínhamos empurrando com a barriga há um bom tempo. Foi essa a sensação que tive ao ler “Quando o processo me pegou pelo braço – Com licença, estou me reencontrando”, de Tati Riceli, publicado pela Ipê das Letras. Recebi o livro via LC Agência de Comunicação e, desde o começo, ficou claro que não era uma leitura “leve” no sentido de superficial: é um texto íntimo, bem escrito e, acima de tudo, muito honesto.

Logo no prólogo, a autora indica o que está em jogo: escrever é uma forma de fazer as pazes com a própria história. E essa proposta aparece ao longo do livro como um fio condutor — não como uma narrativa perfeita, cheia de marcos e viradas espetaculares, mas como um processo real, com contradições, cansaços, autoengano e descobertas. A escrita é envolvente porque alterna memória e reflexão com um tipo de humor que, às vezes, alivia e, em outras, denuncia: o riso pode ser recurso, mas também pode ser proteção.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é a estrutura que inclui, ao final de alguns trechos, um “dicionário de emoções”. Esse recurso funciona como uma pausa para organizar o que foi vivido e sentido, quase como se a autora colocasse palavras em coisas que a gente costuma guardar sem nome. Em um desses momentos, por exemplo, aparece a definição de “caber” como uma urgência emocional para se encaixar sem manobras — e essa ideia reverbera por todo o texto: quantas vezes a vida vira um esforço constante de adequação, mesmo quando isso custa caro por dentro?

A partir daí, o livro costura um tema que atravessa muita gente: a relação entre comida, afeto e consolo. A autora traz a comida como uma das primeiras linguagens do amor — algo que acolhe, aproxima, protege —, mas também mostra como, ao crescer, podemos transferir para ela uma expectativa impossível: a de resolver o que não foi dito, o que não foi sentido com tempo, o que não foi elaborado. Uma das frases que grifei resume isso de forma brutal e delicada ao mesmo tempo: “o corpo torna-se palco das emoções não ditas”. É um tipo de frase que não precisa de explicação porque a gente entende no corpo, antes de entender na cabeça.

O texto também se apoia muito bem em imagens e metáforas. Em certo momento, “corte e costura” aparece associado à cirurgia bariátrica, e essa escolha é poderosa porque desloca a discussão do campo puramente físico para algo mais amplo: transformação, expectativa, estética, cicatrizes, controle e vulnerabilidade. Não é uma abordagem sensacionalista nem distante — é humana. E justamente por isso pega.

Outra ideia que permanece depois da leitura é como a autora observa os mecanismos que a gente cria para não encarar o que dói. Há uma frase que me marcou muito: “quando tudo vira celebração, pode ser que estejamos fugindo do que não queremos olhar”. É uma provocação direta. Nem sempre a festa é leveza; às vezes, ela é ruído. Às vezes, é distração. Às vezes, é um jeito de “performar” que está tudo bem para não tocar no ponto sensível.

E, no meio disso tudo, surgem reflexões sobre cuidado — especialmente o cuidado de quem cuida. O livro faz a gente perguntar, com sinceridade, “quem cuida de quem cuida?”. E traz uma frase simples que, para mim, funciona como lembrete prático de limites: “nem todo convite é uma missão”. Essa linha, sozinha, já vale um post-it na tela do computador. Porque muita gente — e eu me incluo — aprende a confundir disponibilidade com obrigação, afeto com responsabilidade, presença com sobrecarga.

A terapia aparece como parte desse percurso e, com ela, aquelas frases que parecem um “tapa delicado”, mas necessário. Uma das observações registradas pela autora é: “talvez você só esteja habituada a se consolar”. Essa frase tem um incômodo específico, porque ela aponta para um comportamento comum: a gente aprende a sobreviver, aprende a funcionar, aprende a se acalmar — mas nem sempre aprende a cuidar do que está por trás. Consolar pode virar um modo de seguir andando sem, de fato, atravessar.

No fim, o que fica de “Quando o processo me pegou pelo braço” é a sensação de que ele foi escrito por alguém que decidiu parar de fingir que dá conta de tudo. Não é um livro de fórmulas, nem um manual de autocura. É um livro de processo. De tentativa. De reencontro. De nomear emoções e admitir ambivalências. E talvez seja isso que torna a leitura tão potente: ela não quer te convencer; ela te acompanha — e, em alguns momentos, te chama para olhar junto.

Eu recomendo especialmente para quem se interessa por narrativas de autoconhecimento que não romantizam o caminho; para quem já percebeu o corpo como lugar de expressão do que não se diz; para quem vive cuidando de outros e precisa urgentemente reorganizar limites; e para quem gosta de livros com frases que ficam ecoando dias depois. Entre as que eu guardo comigo estão: “o corpo torna-se palco das emoções não ditas”, “quando tudo vira celebração, pode ser que estejamos fugindo do que não queremos olhar” e “os melhores líderes cuidam dos outros, mas também sabem que é hora de cuidar de si”. São lembranças pequenas, mas com grande poder de ajuste de rota.

Se você já leu ou ler, me conta: qual parte te pegou pelo braço também?

Janaína Leme / jan2026

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