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Livro relata jornada de agente humanitária brasileira por cenários de guerra e o reencontro com o corpo através da yoga

Relatos intensos e sensíveis sobre trauma, esgotamento e reconstrução do corpo e da mente dão o tom do livro Notas de Rishikesh – Manual sobre movimento, mosquitos e meditação na Índia da advogada brasileira e agente humanitária Letícia Zenevich.

Resultado de anos de experiências em contextos extremos de violência e vulnerabilidade, o livro acompanha a jornada da autora desde sua atuação em zonas de conflito na África e na América Latina até a decisão de buscar  equilíbrio em Rishikesh, cidade sagrada no norte da Índia, localizada aos pés do Himalaia e às margens do rio Ganges. Considerada a capital mundial do yoga e da meditação, Rishikesh abriga dezenas de ashrams, escolas tradicionais e centros internacionais dedicados às práticas contemplativas.

Escrito a partir de diários de viagem, “Notas de Rishikesh” entrelaça memórias duras dos campos de deslocados, do contato cotidiano com a morte e da violência estrutural, com o cotidiano exaustivo e transformador de um curso intensivo de formação em yoga. A obra aborda temas como meditação, autoconhecimento, superação de limitações corporais e a difícil tarefa de reconectar-se com o próprio corpo após experiências brutais.

Letícia Zenevich construiu uma sólida carreira humanitária internacional. Seu interesse pela área começou em 2014 em Nova Iorque, atuando em uma ONG especializada em litígio estratégico para solicitantes de refúgio LGBTQIA+. No mesmo ano mudou-se para a França, onde concluiu o mestrado em Direitos Humanos e Ação Humanitária Internacional pela Sciences Po Paris. Em 2016, passou a trabalhar em uma ONG em Amsterdã, iniciando uma trajetória que a levaria a diferentes partes do mundo.

Atuou na capacitação em direitos das mulheres por toda a América Central e em grande parte da América Latina, sempre retornando à sua casa, em Amsterdã. Foi, porém, em 2018, na República Democrática do Congo, que decidiu viver em tempo integral em países do Sul Global. No mesmo ano, ingressou no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, em Honduras, como Oficial de Direitos Humanos.

“O Congo é  o país que me fez querer ficar, é uma nação com contrastes imensos, de uma beleza natural exuberante e com um dos conflitos mais persistentes e trágicos que há, com estradas improváveis, uma comida terrível em uma terra fértil e tanta, mas tanta complexidade que é impossível começar a entender senão por aproximações e beiradas”, relata a autora. “Por uma coincidência incrível, em 2022, voltando da Índia, a primeira missão para a qual  fui chamada na minha organização atual foi para a mesma cidade congolesa onde eu havia estado, a querida Uvira. Foi uma simetria bonita, essas confirmações do acaso de que a gente está indo na direção certa.”

Reunificar famílias no Congo, libertar reféns de grupos armados, encontrar corpos de desaparecidos na Colômbia e escalar uma montanha com malária, para negociar com um grupo armado, foram apenas algumas das missões que colocaram Letícia frente a frente com a morte. O assédio, a miséria humana e a violência cotidiana a levaram ao adoecimento físico e psicológico. Com mais de 100 quilos, exausta e em depressão profunda, ela chegou a um ponto de total indiferença em relação à própria vida. É nesse contexto desesperador que a yoga surge, em “Notas de Rishikesh”, não como solução idealizada, mas como um processo imperfeito de reencontro com o corpo e a alma.

 “Queria um livro sobre esse início bagunçado, cheio de dúvida e autossabotagem desse processo, não o produto final. Ainda hoje não sou nem estou perto de ser o produto final desse processo”, afirma. “Não sou a yogi ideal, e a yogi ideal não é ideal para mim, que ando por aí toda imperfeita e desastrada e invariavelmente com alguma mancha de café na roupa.”

Atualmente, Letícia atua em Cabo Delgado, em Moçambique, seu trabalho envolve casos de detenções arbitrárias, recrutamento forçado de crianças e violência sexual.

Entre reflexões filosóficas e dicas práticas sobre a vida na Índia, “Notas de Rishikesh” é um livro sobre aceitar o desequilíbrio, aprender a descansar e reconstruir a própria existência com mais consciência, movimento e compaixão.

Sobre a autora:

Letícia Zenevich é mestre em Direitos Humanos e Ação Humanitária Internacional pela Sciences Po Paris e graduada em Direito pela UFRGS. Trabalha em zonas de conflito armado, entre armas, latrinas e negociações improváveis. Vive em Moçambique, após missões pela ONU e ONGs em Nova York, Paris, Amsterdã e por diversas cidades da África e América Latina. Entre guerras e idiomas, fez do tapetinho de yoga sua casa e da escrita seu lar. Nas férias, busca silêncio em retiros de yoga, monastérios ou na beira da praia — fingindo reconhecer seu companheiro entre dez surfistas idênticos. Ainda não alcançou a iluminação, mas não tem deixado faltar luz em sua vida.

Notas de Rishikesh

Autora: Leticia Zenevich

Editora: Independente

Páginas:163

Preço: R$ 59,90

Vendas: Amazon

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