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Eu Já Estive Em “O Voo da Pipa”, de Roberto Gerin

Eu pensei várias vezes em ter um livro que eu pudesse guardar para ter documentado de alguma forma os momentos que todos nós passamos em meio à pandemia. Foi quando, escolhida para a Leitura Coletiva de “O Voo da Pipa”, encontrei o livro que eu tanto queria.

Roberto Gerin escreve um diário onde, dia após dia, o personagem principal – que não tem um nome justamente porque pode ser cada um de nós – conta sobre seus dias de confinamento. Ele recém mudou para um apartamento, porque, além da pandemia, está lidando também com o luto, pois acabou de perder Belinha, sua esposa, de 59 anos.

São muitos os sentimentos retratados na obra: um pai que se isola de suas filhas e neta por conta do vírus, viver no apartamento, que é novo para ele, mas necessário por conta do confinamento, a saudade dos que estão aqui e da Belinha que já se foi. E, é aí que o autor estabelece um diálogo constante com Belinha, misturando os acontecimentos atuais – o passo a passo da pandemia nas nossas vidas – com o que morreu junto com sua esposa.

Os diálogos mostram as inúmeras vezes que o personagem se distraia olhando o vizinho sair pelo corredor do andar com o cachorro, as formigas que desfilavam pela cozinha, o coqueiro que dava para ser visto da janela, as tantas vezes que as filhas deixavam as compras no corredor, a decisão de ir ao mercado sozinho depois de meses confinado, a existência de pessoas que até hoje não acreditam que há um vírus, o medo de ser contaminado, entre tantas coisas.

Do seu amor por Belinha, o personagem relembra Sweet Caroline – musica preferida deles e dança tantas vezes sozinho, dos pratos que faziam e saboreavam juntos, dos momentos de amor e dos livros que ela lia. Ele também decide ler os livros de Belinha para relembrá-la nas histórias que gostava de ler.

Do seu passado, o personagem lembra de Bira, um amigo de infância que sempre empinava Pipa com ele, mas não era de conversar muito, mas que tem um desfecho inesperado na história. Alias, sem dar spoiler, a história toda tem um desfecho inesperado, assim como a vida real, que muitas, muitas vezes nos pega de surpresa.

Foi um livro que me emocionou muito porque você vai se sentir em algumas da situações que o personagem está vivendo e retratando em seu diário, seja dos momentos do confinamento, seja da saudades dos encontros,  mas espero muito que não seja por ter perdido alguém!

Algumas frases do livro que separei para a resenha:

  • Passamos a viver dentro de um enredo cujos capítulos, em doses múltiplas, saem toda hora nos noticiários de televisão.
  • Ficava em tumultuada angústia, observando as pipas se contorcerem no firmamento feito borboletas embaladas pelo suave sopro do vento.
  • Os livros viviam perto de você, feito gatos dengosos, ao alcance de seus dedos, na carícia do seu olhar.
  • Ah, Belinha, Eureka! Eu descobri! O amor é eterno, não a vida!
  • Que aquele mundo de encantos já não mais existe, as novas rotinas são irreversíveis, nada mais voltará a ser como antes.
  • O que é da vida se existe a morte? A vida me tirou você. Resta a morte me devolvê-la.
  • Filho, ensinamos a caminhar pelo mundo com as sandálias da honestidade. Filho, temos que entregar para a vida!
  • Neste momento o grito desesperado da sirene sobe a avenida, corro até a janela, mas já é tarde. A vida passou.
  • Não há tempo para o abraço, não há tempo para o beijo! Ainda é hora de cavar o túmulo.
  • Arrependido estou eu de quando permiti que esse vírus humano entrasse na minha casa!
  • Será que a pandemia veio arrancar o amor de seu pedestal? E deixou-nos apenas sua carcaça para que preenchêssemos com perguntas?
  • Quando corremos atarefados no dia a dia, parece que a memória adormece e nos esquecemos do nosso passado, das boas e más lembranças.
  • Eu só acredito no amor, não há outra vacina que cure tantas feridas.
  • A pandemia não purificará a raça humana, pelo contrário, irá apenas desmistificar suas fragilidades.
  • Temos que combater o pensamento, não o amor! Não é, Belinha?

Roberto Gerin, o autor, nasceu em Astorga, no Paraná. É dramaturgo, autor de mais de 20 peças de teatro, e romancista. Seu primeiro texto teatral, Uma Última Cena Para Lorca, escrito em 2001 e encenado no Rio de Janeiro, foi indicado ao Prêmio Shell em 2005 na categoria Melhor Autor. Apesar da extensa obra literária, “O Voo da Pipa” surge como uma publicação de estreia. Agora, prepara a publicação do romance “O Magnífico Cabo Diógenes”. 

“O Voo da Pipa”, de Roberto Gerin, tem 230 páginas e está à venda na Amazon. O autor divulga seu trabalho em www.escritorgerin.com.br

Janaína Leme

@eujaestiveem

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