‘Posta-Restante’: um espaço familiar em que, apesar disso, tudo é saudade e alguma coisa sempre falta

Em livro de estreia, o comunicador e psicanalista Mark Cardoso reúne — entre crônicas, contos, cartas, diários e
mergulhos — amores, dissabores, desafetos, vazios, desejo, amizades…
Mensagens que não alcançaram seus destinatários…
No passado, quando uma carta ou encomenda não chegava ao seu destino – fosse por inesperadas ausências, fosse por erros de endereçamento –, iam esperar em um quarto especial dos correios… lá onde cada instante é sempre.
Destinatários que não receberam suas mensagens…
Ansiosos por uma resposta, um pedido, uma declaração, um sinal, uma notícia, uma dor… acabavam por, em alguma àtardecência da vida, tentar buscar nos correios o antídoto para seus vazios. É na antiga posta-restante dos serviços postais que esses dois elementos se cruzavam, enfim.
Como gosta de brincar, Mark Cardoso “canta, dança e não representa… mas escreve!” Sempre escreveu. Ao longo
da vida, escreveu mensagens para alguéns, cartas para ninguéns e textos para tocar outras almas. Gosta de acreditar que as palavras nascem no pé da goela, entre boca e coração, e escorrem pelas pontas dos dedos.
Aos 39, é jornalista e publicitário, mestre em Comunicação Social pela UnB (Universidade de Brasília) e um psicanalista em sua eterna formação. É com esse repertório que ele põe no mundo um desejo que está fazendo 20 anos: ter seus originais aceitos por uma editora.
Neste que é seu primeiro livro, reuniu todas as mensagens que nunca encontraram seus destinos; mensagens cujos destinatários já vieram, em algum momento, reclamar suas posses; e também mensagens que se tornarão pó, na estante dos restos e dos esquecimentos. A não ser que o leitor passe lá para reclamar… ou ainda melhor: a não ser
que o leitor consiga se ver com papel e caneta em mãos, vivendo essas histórias, fantasiosamente realistas, assinando aquelas cartas ou deitando- se naquele divã.
E por falar em divã, Posta-Restante traz consigo uma centelha: a quebra da ‘quarta parede’ do consultório da psicanalista do autor, de modo que o leitor é convidado não só a ser voyeur do inconsciente alheio, mas a atravessar de mãos dadas por devaneios, delírios, memórias redescobertas, alegrias e reconstruções que são dele, mas certamente poderiam ser tuas e de todos nós. Tudo isso porque o autor crê na pergunta como início
do movimento e, talvez por isso, já tenha vivido em cinco cidades diferentes.
E assim, ao desatar o nó puído que enlaça os envelopes desta posta- restante, o leitor também encontrará contos ficcionais em universos de amor, ódio e risadagem… crônicas de uma vida como a sua: sempre em
busca de fôlego… e cartas perto do coração — selvagem ou não.
Com esta obra, Mark Cardoso quer acreditar que, às vezes, a gente acaba. E ponto-final… mas sempre recomeçamos para reencenar aquilo que gela a barriga, treme a mente e mantém o coração a palpitar.
POSTA-RESTANTE
Editora Patuá – junho de 2023
295 páginas
Mais infos em https://www.postarestante.com.br/