Eu Já Estive Em “O Inventor”, de Miguel Bonnefoy

Uma história cheia de altos e baixos, doenças que fazem parte quase que de todos os capítulos, mas escrita com leveza, falando a real, o que muitas vezes soa até divertida. Assim é “O Inventor”, escrito por Miguel Bonnefoy e publicado pela editora Vestígio.
Essa é uma biografia romanceada. Vamos conhecer Augustin Mouchot, mais um dos grandes esquecidos da ciência. Criador da máquina movida a energia solar, Mouchot teve seus perrengues antes de seu dia de glória, justamente porque não dependia só dele para o sucesso. O sol precisava estar brilhando, literalmente, para que seu experimento fosse um sucesso. Sendo assim, foram muitos os dias nublados até chegar seu dia de sol, mas, acredito que ele não soube aproveitar muito bem seu dia ensolarado.
Mouchot nasceu frágil e é justamente a forma, digamos, divertida do autor escrever que deixa o livro muito mais interessante: “… com seis meses já estava exausto de viver… todo enrugado e mirrado como um sapo doente… não houve nenhuma bactéria, nenhum vírus, nenhum germe que tenha se alojado no corpo do menino…”.
Também destacamos o trecho: “Foi por isso que assim que aprendeu a escrever, adquiriu o hábito que nunca o abandonou, sempre deixando antes de adormecer, uma mensagem prudente sobre a mesa de cabeceira: embora pareça, não estou morto”, porque essa frase vai fazer sentido em muitos momentos do livro.
O autor também vai dando spoilers do que pode vir a acontecer na história entre os parágrafos, como por exemplo: “meio século depois, moribundo, aos 87 anos e com 87 doenças, Mouchot se lembraria de sua chegada àquele ateliê…”, ou seja, mesmo estando na metade da história, já saberemos que o protagonista vai viver pelo menos até os 87 anos e chegará a essa idade com 87 doenças, o que não muda muito do começo, já que ele nasceu com todos os vírus e germes alojados no corpo.
Também adoro quando aprendo palavras como Palimpseto. Isso designa um pergaminho ou papiro cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização. Tal prática foi adotada devido ao elevado custo do pergaminho. A eliminação do texto era feita através de lavagem ou, mais tarde, raspagem com pedra-pomes.
Sinopse: França, meados do século XIX. Esta é a incrível história de Augustin Mouchot. Filho de um serralheiro, esse obscuro professor de matemática se tornou o inventor da máquina movida a energia solar, graças à descoberta de um livro antigo na sua nova biblioteca.
Sua invenção, que batizou de “Octave”, seduziu Napoleão III e recebeu a aprovação das autoridades e da imprensa, tendo sido exibida com sucesso na Exposição Universal em Paris, em 1878. Mas a Revolução Industrial, impulsionada pelo carvão, arruinou seus projetos, que eram considerados demasiado dispendiosos. Depois de muitos altos e baixos, em uma última cartada, Mouchot tenta reavivar o fogo da sua descoberta sob o escaldante sol argelino, não sem graves consequências pessoais. Com a vivacidade pulsante pela qual o conhecemos, Miguel Bonnefoy oferece nesta biografia o retrato deslumbrante de um gênio atormentado e esquecido.
Sobre o autor: Miguel Bonnefoy é franco-venezuelano e nasceu em Paris, em 1986. É autor de romances conceituados, como Le Voyage d’Octavio (Rivages pocket, 2016), Sucre noir (Rivages pocket, 2019) e Herança (Vestígio, 2021), que receberam vários prêmios e foram publicados em 15 países. Herança foi eleito o melhor livro de 2021 pelos livreiros franceses.
O Inventor, de Miguel Bonnefoy, publicado pela Editora Vestígio, tem 149 páginas e está disponível tanta no formato impresso, como digital. À venda nas livrarias de todo o Brasil, nas plataformas de e-commerce e no site da editora. E para fechar, acreditem: “Mouchot viveu seu dia de glória. Deixou o estrado como se deixasse o mundo de ontem para entrar no de amanhã.”
Janaína Leme
@eujaestiveem