Eu Já Estive Em “A Face Oculta de Eva”, de Nawal El Saadawi, publicado pela Global Editora

“A fêmea perfeita é submissa, caminha com a cabeça abaixada e deve ter pouca estatura.” Essa é uma das milhares frases que impactaram a minha vida ao ler A Face Oculta de Eva, escrito por Nawal El Saadawi e publicado pela Global Editora, da qual tivemos a oportunidade incrível de participar de uma leitura coletiva repleta de troca de informações.
A obra é dividida em quatro partes e te digo: passando a primeira parte “A metade mutilada”, você jamais vai olhar para as mulheres árabes da mesma forma, já que é nessa parte que você vai ler sobre agressão sexual, a circuncisão em meninas, gravidez indesejada, o aborto e tantos outros temas, com um peso 10 vezes maior, ou mais, para todas elas. Na parte dois a autora aborda “As mulheres na história”, na parte três “A mulher árabe” e na parte quatro “abrindo caminho” chegando ao trabalho, casamento e divórcio.
Não tenho como simplificar em poucas palavras todo o sofrimento lido nessas páginas, mas aprendi muito sobre como a toda a manipulação dos poderes das mulheres no mundo árabe está ligada a questões políticas e econômicas. A autora traz fatos de como as mulheres estavam à frente no Egito e as mudanças foram ocorrendo para pior para elas quando as necessidades econômicas e políticas foram mudando historicamente falando.
E, para destacar um ponto que me chamou a atenção, coloco aqui a virgindade. É muito complexo para mim, porque muitas vezes a virgindade está sendo tirada antes até do que a menina saber do que se trata, e você será cobrada por isso a vida inteira.
São muitos os trechos separados da obra, porque foram muitos mesmo os que me impactaram:
“No Alcorão, não há uma só palavra sugerindo que as mulheres devem ser obrigadas a usar véu ou não devem estudar e ser profissionais.”
“A trilogia composta por política, religião e sexo é a mais sensível de todas as áreas de qualquer sociedade.”
“É provável que essa conclusão advenha de uma análise incompleta ou preconceituosa sobre a religião muçulmana e o papel que tem desempenho na mudança social.”
“No Egito, com o pretexto da religião, o obscurantismo, o fanatismo e a exploração unem-se para privar o povo de seu pão, de suas necessidades vitais, com o único intuito de servir aos interesses de alguns”
“Agora sabemos o que é isso. Agora conhecemos a nossa tragédia. Nascemos com um sexo especial, o sexo feminino. Estamos predestinadas a provar o sabor da desgraça e a ter uma parte de nosso corpo mutilada por mãos insensíveis e cruéis.”
“O resultado é que durante a noite de núpcias faz-se necessário o alargamento da a abertura virginal externa, rompendo-se uma ou as duas extremidades com um bisturi, ou uma navalha bem afiada de modo a permitir a penetração do membro masculino.”
“A partir do momento em que nasce e mesmo antes de aprender a pronunciar as palavras, o modo como as pessoas observam-na, a expressão em seus olhos, de alguma forma indica que ela nasceu “incompleta”, “sem alguma coisa”.
“A menina morreu antes de completar quarenta dias de vida, e não sei se morreu na negligência ou se sua própria mãe a sufocou a fim de “ter paz e dar paz”, como se costuma dizer em meu país.”
“O volume de seu ventre era causado por um acúmulo do fluxo menstrual na região vaginal por meses a fio, desde a puberdade, aparentemente atingida algum tempo após o casamento. A ausência de uma abertura impedira a saída da menstruação.”
“Já que são os homens que estabelecem as regras para as mulheres, eles, como não poderia deixar de ser, permitem-se tudo o que a elas é proibido.”
“… tratando da hemorragia resultante do processo de defloração aplicado por uma daya que, enfiando seu dedo com uma unha cumprida e suja, fere o delicado tecido que reveste as paredes vaginais.”
“Esse procedimento é extremamente primitivo e muito parecido com a circuncisão sudanesa, por meio da qual se faz a extirpação do clitóris e dos lábios externos e internos, e fecha-se a abertura vaginal com uma tira do intestino da ovelha…”
“Por essa razão, acredito plenamente que a origem dessa condição inferior da mulher em nossa sociedade e sua falta de oportunidade de progredir não se devem ao Islamismo, mas a determinados poderes políticos e econômicos…”
“Os homens árabes, e por que não dizer, a maioria dos homens, não suportam mulheres inteligentes e experientes. Parece que são temidas por eles, devido à sua capacidade de compreendê-los e enxergar seus defeitos e fraquezas”.
“Uma vez perdida a virgindade, a mulher irrevogavelmente perde sua honra, sem nunca a recuperar. A honradez de um homem não tem ligação alguma com sua castidade. Ao contrário, sua castidade pode ser queimada milhares de vezes sem que com isso ele perca a honra”.
“O significado da segregação e do véu não foi a proteção das mulheres, mas essencialmente dos homens.”
“O conhecimento é a mais elevada forma de adoração para um crente muçulmano. E para que a mente possa devotar-se à aquisição do conhecimento e seja capaz de concentrar todas as suas forças de pensamento, é necessário gastar e liberar a energia sexual…”
Sinopse: “O feminismo não é uma invenção ocidental” afirma Nawal El Saadawi, tendo a mulher árabe uma trajetória própria a respeito. Os últimos acontecimentos no mundo árabe, como as ondas de protestos no Irã, revelam o quanto a afirmação da autora dialoga com o momento que vivenciamos: a mulher árabe tem lutado arduamente para conquistar a sua emancipação, diante dos riscos de enfrentar os sistemas políticos ligados ao poder religioso e diante das interferências e má interpretações do Ocidente. Nesta obra, 3a edição pela Global Editora, El Saadawi apresenta informações pungentes de eventos históricos a partir de estudos pautados, entre outras fontes, na origem das religiões e do patriarcado – em partes como “As mulheres na história” e “A mulher árabe” -, para atestar as causas e ideologias que contribuíram para a brutalidade e a opressão sexual contra as mulheres. Ao expor estes fatores – e experiências pessoais -, a autora promove, assim, um impactante encontro com outras faces da mulher do mundo árabe: “mulheres que pensam e falam o que pensam” E lutam.
Sobre a autora: Nawal El Saadawi foi ativista e escritora, reconhecida internacionalmente por sua luta pelos direitos das mulheres no Egito e no exterior. Nasceu em 1931, em uma aldeia ao norte do Cairo. Em 1955, formou-se em Medicina na Universidade do Cairo, onde se especializou em Psiquiatria. El Saadawi teve uma trajetória de vida marcada por perseguições políticas. Seu posicionamento afiado e suas críticas contundentes à sociedade árabe culminaram em sua demissão na Secretaria de Saúde Pública do Egito, em 1972, e em sua prisão, em 1981, por supostos “crimes contra o Estado”, entre outros confrontos com autoridades ao longo de sua vida. Teve uma produção prolífica, entre ficção e não ficção, publicando mais de 40 obras, muitas delas traduzidas e publicadas em dezenas de países. Morreu no Cairo, em 2021, aos 89 anos.
A Face Oculta de Eva, de Nawal El Saadawi, publicado pela Global Editora, tem 286 páginas e está à venda nas livrarias de todo o Brasil, no site da editora e nas plataformas de e-commerce como a Amazon com valor médio de R$60,00.