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Eu Já Estive Em “As Conversas que Nunca Tive com a Minha Mãe – histórias reais”, organizado por Michele Filgate, publicado por Vestígio


Para essa resenha vamos partir da premissa que tudo está resolvido entre você e sua mãe, por favor! Caso contrário, você vai sentir vontade de se levantar no meio da leitura e resolver as pendencias da vida que foram ficando para trás, pode ter certeza. Estamos falando de “As Conversas que nunca tive com a minha mãe – histórias reais”, escrito e organizado por Michele Filgate e publicado pela Editora Vestígio.


Todas as 15 histórias estão relacionadas às mães de quem as escreve e, de novo, vale frisar, que são histórias reais. E é o que deixa a obra mais complexa, porque você vai ler e vai ter um sentimento enorme de resolver aqueles pontos em aberto que tem com sua mãe, seja uma dúvida sobre parte da vida que passou, seja um desabafo, seja um dizer “eu te amo”.

Como são 15 histórias pontuais, como se fosse um livro de contos, é mais complexo falar sobre a obra e não dar spoilers, então escolhi falar brevemente sobre algumas das histórias para que vocês possam ter uma ideia dos sentimentos retratados. Minha conclusão lendo a obra, inclusive, é que a obra tem esse nome porque muitas dessas conversas realmente são impossíveis de serem ditas e escrevê-las acabou sendo o desabafo para todos que participaram.


Em Xanadu, por exemplo, Alexandre Chee, um menino que sofre abuso sexual na escola, jogava Dungeons & Dragons, birracial e queer, excluído no colégio, traz a questão da rejeição, do aliciamento da vítima. Em Alameda Minetta, 16, Dylan Landis traz a mãe e filha aprendendo a passar camisa social para aprender a passar as camisas do pai; o título é a rua em que a mãe morava quando jovem e ao passar em frente com a família, o pai praticamente ignora esse passado. Ah! Não que eu passe camisas, mas aprendi que se você colocar a camisa na gaveta de verdura da geladeira ela vai ficar úmida e é mais fácil de passar. Comentários a parte, mostra o quanto se relacionar com alguém pode fazer você se transformar em uma pessoa totalmente diferente daquela que você gostaria de ser. E sua filha pode perceber isso, viu?
Em Quinze Anos, de Bernice L. McFadden, a filha fugia de casa porque apanhava do pai bêbado, a mãe fugia de casa por conta da indiferença da avó que roubava coisas onde estivesse, ambas saíram de casa pela primeira vez aos quinze anos, uma das histórias mais complexas para mim por conta do histórico familiar que foi se repetindo.

Nada ficou sem ser dito, de Julianna Baggott, a mãe já tinha criado os filhos e a filha, por ser a caçula, ficou como confidente da mãe, a ponto de não ir à escola para ouvir as histórias contadas pela mãe, muitas vezes surreais, mais foi essa contação de história que fez a filha se tornar a escritora que é atualmente. Um dos meus conteúdos preferidos.


Mesma história sobre minha mãe traz uma filha, deprimida, que traz uma história que mais parece um desabafo e que diz estar em paz agora com a situação vivida com sua mãe, mas, cá entre nós, tenho minhas dúvidas. Enquanto tudo isso me parece americano traz um menino negro abusado no acampamento por uma mulher com questionamentos como “sobre o que eu quero mentir?” e “peguei pesado com você porque queria que você melhorasse no quesito amor”. Também aprendi sobre o Transtorno de Personalidade Borderline em Seu Corpo meu Corpo, onde a história começa com uma mãe que limpa sua filha sempre que ela vai ao banheiro, mesmo essa filha tendo 12 anos.


Alguns pequenos trechos da obra:


“Logo ficou claro que minha avó estava à vontade para dar as entrevistas, eu é que não estava pronta para ouvir. Achei difícil. Eu me emocionava.”


“Conviver com o sofrimento provocado pela tensa relação com a minha mãe é uma coisa. Imortalizá-la em palavras é outra completamente diferente.”


“Depois que meus pais se separaram, eles optaram pelo nesting, que é um acordo no qual as crianças permanecem na casa da família enquanto os pais se alternam nos cuidados com os filhos.”


“Há uma diferença entre o medo de aborrecer alguém que te ama e o perigo de perder essa pessoa. Por muito tempo, eu não conseguia separar essas duas situações.”


“A mente é tão maravilhosa quanto perversa. Ela pode escolher nos salvar de nossas memórias ou nos maltratar com elas.”


Sinopse: Durante a faculdade, Michele Filgate começou a escrever um ensaio sobre o abuso que sofreu por parte do padrasto. Levou mais de uma década até que ela percebesse que, para além dele, o tema do ensaio era as consequências na sua relação com a mãe. Quando enfim foi publicado, em 2017, o ensaio viralizou e foi compartilhado milhares de vezes nas redes sociais por diversas pessoas, inclusive pelas escritoras Anne Lamott e Rebecca Solnit. A avalanche de respostas positivas deu ânimo para que Michele organizasse esta antologia, que oferece um olhar franco sobre as relações entre mães e filhos. Alguns dos autores não falam com a mãe há muitos anos; outros são extremamente próximos. Leslie Jamison, por exemplo, escreve sobre a tentativa de descobrir quem era a sua mãe, aparentemente perfeita, antes de ela mesma se tornar mãe. No hilariante texto de Cathi Hanauer, ela finalmente tem a oportunidade de ter uma conversa com a mãe sem ser interrompida pelo seu pai, um homem ao mesmo tempo dominador e adorável. Temos textos sobre a surdez de uma mãe (por André Aciman) e sobre a franqueza desmedida de outra (por Julianna Baggott). Melissa Febos, por sua vez, usa a mitologia para analisar a estreita relação que tem com a mãe psicoterapeuta. Há um alívio em quebrar esse silêncio em torno das relações maternas. Reconhecer que nos calamos por tanto tempo, e enfim poder ter essas conversas, é uma forma de curar nosso relacionamento com as mães e, talvez o mais importante, com nós mesmos. Com textos de Cathi Hanauer, Melissa Febos, Alexander Chee, Dylan Landis, Bernice L. McFadden, Julianna Baggott, Lynn Steger Strong, Kiese Laymon, Carmen Maria Machado, André Aciman, Sari Botton, Nayomi Munaweera, Brandon Taylor e Leslie Jamison.


Sobre a autora / organizadora: Michele Filgate é editora do Literary Hub e criadora da série Red Ink Consultora e professora de escrita criativa, já deu aulas na New York University (NYU), The New School, The Sackett Street Writers’ Workshop, Catapult, The Shipman Agency e Stanford Continuing Studies. Em 2016, foi nomeada pela Brooklyn Magazine uma das 100 pessoas mais influentes da cultura do Brooklyn. Ela tem um mestrado em belas-artes pela NYU é ex-membro do conselho do National Book Critics Circle.


“As conversas que nunca tive com a minha mãe – histórias reais
”, escrito e organizado pela Michele Filgate, é uma publicação da editora Vestígio. Assinam os textos: Cathi Hanauer, Melissa Febos, Alexander Chee, Dylan Landis, Bernice L. McFadden, Juliana Baggott, Lynn Steger Strong, Kiese Laymon, Carmen Maria Machado, André Aciman, Sari Botton, Nayomi Munaweera, Brandon Taylor e Leslie Jamison. Tem 224 páginas e está à venda nas livrarias de todo o Brasil, nas plataformas de e-commerce e no site da editora. Confira meus resenhados na página da Amazon.

Janaína Leme
@eujaestiveem

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