Eu Já Estive Em “Tia Beth”, de Leonardo de Moraes, publicado pela Insígnia Editorial

Como escrever sobre temas complexos e extremamente importantes para a sociedade como a ditadura militar e os resquícios do Holocausto que aconteceram, sim, no Brasil, sem ser piegas e sensacionalista? Pois é! Isso, Leonardo de Moraes pode responder para vocês com todas as letras aqui em Tia Beth, romance publicado pela Insígnia Editorial.
Para mim o livro é praticamente dividido em dois momentos. Tia Beth escala seu sobrinho-neto, que por coincidência, ou não, se chama Leonardo, para escrever sua autobiografia, mas não quer reviver seu romance juvenil. Sendo assim entrega seus diários e cartas para Leo ler e vão conversando sobre essas leituras onde o garoto pode entender mais sobre quem foi sua tia-avó, com quem se relacionou e como surgiu na vida de todos, Tavinho, personagem que será elo entre as duas partes da trama. Vale destacar que todas essas conversas são regadas a Café, Bourbon, cigarro, dependendo do humor e do ápice do momento. Por que na minha cabeça divido o livro em dois? Porque essa primeira parte é mais romântica, Tia Beth é jovem, está descobrindo o amor e aqui o foco é o Holocausto e os perrengues que ele está causando aqui no Brasil e aos alemães que aqui se refugiam.
A religiosidade entra em cena, e não falarei muito sobre isso para não dar spoiler e a partir de então o livro ganha outros ares, porque aqui o foco passa a ser Tavinho já jovem, vítima da Ditadura, com uma Tia Beth tentando descobrir a todo custo o que aconteceu com seu filho. As cartas e aqui o diário dela perde um pouco o espaço, as conversas entre ela e Leo ganham mais força, mas entram em cena as cartas de Rogério – personagem que vocês só vão descobrir quem é se lerem o livro – e, justamente por conta de toda essa mudança de cenário, eu praticamente enxerguei dois livros em um só em Tia Beth. Claro que muita coisa acontece em todo esse meio tempo, com personagens que surgem para rechearem o livro de plot twist.
As mulheres fortes se fazem presente desde a primeira linha da trama. Tia Beth, já na capa, Amanda, Antonia, Januária, Claudia… são muitas as personagens, cada uma com um papel muito especial no livro. O amor de mãe e o fato de poder ou não escolher ser mãe – sim, vamos falar de aborto – é algo muito presente na obra, tudo sem julgamentos, só sendo como tem que ser para que cada leitor tire suas conclusões e pense a respeito. O livro é denso e, ao mesmo tempo, poético, porque é possível encontrar palavras doces, seja nas páginas do diário quando Beth está descobrindo o amor, seja nas cartas de Tavinho, trazendo a poesia em sua música, nas suas composições. Ah, composições que inclusive foram gravadas pelo autor e podem ser conferidas em seus posts na conta do Instagram onde divulga a obra 😊
Entre as citações históricas que guardei está a “noite dos cristais”, na Alemanha e as “mães de maio”, na Argentina, a primeira referente ao Holocausto, a segunda à ditadura. Castro Alves também tem uma presença considerável na história com seu livro “Espumas Flutuantes”.
Leonardo de Moraes, inclusive, trabalha arduamente na divulgação da obra, que já foi pensada para um futuro nas telas. Aliás, criatividade é o que não falta para o autor, que já grava vídeo com personagens, depoimentos de artistas que já leram o livro, tudo já registrado em seu perfil. É um livro sobre a morte, mas quem ninguém morre durante a história. Complexo e incrível!
“O tempo pareceu parar e tia Beth me olhou como quem queria marcar minhas retinas. Como quem queria ser para sempre lembrada por aquele momento tão mágico.”
“Minha vida foi toda destruída por conta de dedos-duros. Gente sem lealdade deve ter um lugar especial no inferno.”
“Somos todos sobreviventes dos erros dos nossos pais.”
“Não há nada de novo no mundo. Tudo o que aconteceu, tornará a acontecer.”
“Por isso religião é mágica. Seja ela qual for. Uma válvula de escape maravilhosa, quando saudável, claro. Afinal, nós também precisamos de uma mão estendida em nossa direção.”
“O luto pode ser como uma areia movediça, ir te tragando. As lembranças vão te desconectando da realidade, e mantém a sua ferida aberta. Cada foto, cada apego exagerado, impede a dor de coagular.”
“É importante acreditar que nada acontece por acaso; nem mesmo a violência que sofremos ou a tristeza que açoita nosso coração.”
Sinopse: O misterioso desaparecimento do cantor e poeta Tavinho, filho de tia Beth, durante o Regime Militar, faz com que ela, anos depois, decida reviver suas memórias e contá-las para o seu sobrinho-neto Leonardo, no intuito que este as transforme em um livro. Para tanto, o rapaz tem acesso a cartas, relatos e diários que revelam segredos familiares guardados há mais de cinquenta anos, como os que envolvem a gravidez da jovem Elisabeth por um desconhecido e as mentiras familiares que acobertaram tal fato. A narrativa irreverente – e por vezes debochada – de Tia Beth sobre sua juventude se mistura à vida pessoal de Leonardo, que vive a mesma experiência com a gravidez de sua namorada e o dilema moral do aborto adolescente. Logo, passado e presente conspiram para atrasar o processo de escrita do livro de memórias, como se precisassem preparar o espírito de tia Beth para a verdade, que se revela cristalina e impiedosa.
Sobre o Autor: Leonardo de Moraes é escritor, roteirista, artista visual e professor de Direitos Humanos. Formou-se em Direito pela USP, por onde é Mestre em Direito do Estado. É artista residente da New York Academy of Arts, bem como autor de livros de contos, livros infantis, peças de teatro e roteiros para audiovisual para TV Ideal e TV Globo. Tia Beth é seu primeiro romance.
Tia Beth, escrito por Leonardo de Moraes, publicado pela Insígnia Editorial, tem 360 páginas e está disponível no formato impresso e digital, à venda nas plataformas de e-commerce e livrarias de todo o Brasil. Vale super acompanhar as redes sociais do autor porque tem muito conteúdo sobre o livro por lá, inclusive com muitas histórias de bastidores gravadas por atores incríveis.
Janaina Leme
@eujaestiveem