Henrique Rodrigues lança “Áurea”, romance sobre a trajetória de lutas de uma doméstica negra

Semifinalista do Prêmio Jabuti 2023, o escritor carioca Henrique Rodrigues lança “Áurea” (Estrela Cultural), o seu 24º livro, a partir de episódios da vida de sua tia, também batizada com o nome da Lei que, assinada em 13 de maio de 1888, pôs fim à escravidão no Brasil. No romance, Áurea é uma mulher beirando os 60 anos. Ao receber o diploma escolar, rebobina as suas vivências desde a infância e toda a luta que forjou para sobreviver em meio ao racismo, ao machismo e à pobreza.
A fagulha para escrever o romance foi uma conversa. “Quando minha mãe contou que a tia Áurea temia entrar em shoppings e lojas de departamentos por achar que seria acusada de estar roubando aquilo me deu um clique. A vida dela foi mais ou menos desse jeito que está no livro. Ouvi outras histórias parecidas, inclusive de mulheres que tiveram que começar a trabalhar como empregadas ainda mais cedo, aos 8 ou 9 anos”, rebobina Henrique.
Narrado em primeira pessoa, com linguagem simples e direta, o livro de 208 páginas que você lê com fluidez é um retrato dos últimos 50 anos do país e desvela uma trama que é também de muitas mulheres pretas. Invisibilizadas pelas nossas seculares chagas sociais, são elas que carregam o Brasil nas costas há mais de 500 anos. Filho de empregada doméstica e ex-aluno da rede pública de ensino, Henrique se mostrou um ouvinte sensível ao construir este romance feminino e feminista.
Apesar de vir com a força da denúncia de tanto preconceito, é de leitura fluida e continua ecoando, talvez por misturar a realidade em vários níveis: uma pitada das experiências do autor e sua família, outro bocado de notícias dos jornais. Henrique atribuiu à personagem uma cena forte que escutou tantas vezes da mãe: no pouco que ela conseguiu estudar na infância, o caderninho e o lápis eram levados para a escola num saco de arroz.
“Como se costuma dizer, tudo é biografia e nada é biografia. A trama pega desde a ditadura, recortando como todas as mudanças de governos ecoaram nas pessoas mais pobres, pois o que se acompanhou na mídia foi sempre na perspectiva de uma classe média. Naturalmente, há um alento com a recente melhora de condições de vida dos mais pobres, sobretudo no acesso à educação dos governos Lula. Sou um escritor de origem pobre e gosto de trazer a voz dos chamados invisíveis sociais para a literatura”, enfatiza ele.
Os livros também são peças importantes de “Áurea” como são na vida do autor. O clássico “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus, que será em breve filmado, é citado mais de uma vez e o autor revela que releu “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, e “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, antes de se dedicar ao novo livro. Henrique trabalha como gestor cultural de projetos de literatura há mais de 20 anos.
Ele vê com esperança o acesso à cultura letrada que a Educação para Jovens e Adultos (EJA) oferece para os adultos que não puderam estudar regularmente desde a infância. “As alunas de EJA geralmente são esquecidas na educação e têm histórias incríveis, que também me inspiraram”, comenta Henrique, autor frequente em salas de aula de escolas públicas e, inclusive, patrono de duas bibliotecas de Cieps onde estudou.
Com prefácio de Tom Farias e frases de Eliana Alves Cruz e Kiusam de Oliveira na contracapa, “Áurea” também é uma denúncia das agressões que sofrem as domésticas pretas no país. Escritora incensada, Eliana (autora de “Solitária”, sobre temática similar) diz: “Não há no Brasil quem já não tenha conhecido uma Áurea. Raros são os que captam dessas personagens tão cotidianas e naturalizadas na vida nacional suas subjetividades e profundezas, ainda que de forma tão direta e sofisticadamente simples, como faz Henrique Rodrigues”.
“Áurea”
(Estrela Cultural)
Henrique Rodrigues
208 páginas
R$ 69,90