Eu Já Estive Em “Troncos e Barrancos”, de Luiza Medeiros, publicado pela Novos Ases

A regionalidade que você percebe, sempre que viaja, que conhece uma cidade diferente, um estado diferente, é algo extremamente engrandecedor. Mas regionalidade e preconceito não andam juntos e usar de uma, entre aspas, tradição, para não evoluir no que diz respeito ao outro é uma postura nada correta.
A regionalidade está presente em cada página de “Troncos e Barrancos”, romance de estreia de Luiza Medeiros, publicado pela Novos Ases. E aqui, eu acredito que a autora luta justamente para que essa regionalidade permaneça dando espaço para que, principalmente as mulheres, possam ser quem elas têm toda a capacidade de ser.
Anahí é a protagonista, filha de Itagiba, um pai boçal dono de uma madeireira e irmã de Lorival, que mal se importa com ela. A mãe não tem voz ativa nenhuma frente ao pai e ao irmão. Anahí gosta dos livros, tenta estudar para ser professora, está se tornando mulher. Um circo chega à cidade – não há uma localização exata para a história, mas imagino ser no norte do Brasil por ter referências à Serra Pelada – e ela se apaixona pelo mágico Zion, para desespero do pai de Anahí que vai encontrar uma forma de acabar com isso.
“Troncos e Barrancos” vai se movendo. Anahí não vai ter só a questão com Zion para resolver. Outras situações vão surgir na trama, e ela segue lutando com bravura por 38 dos 39 capítulos até a conclusão do livro. Personagens vão surgindo para deixar a história ainda mais dinâmica. O livro vai fazer você se questionar muito sobre até que ponto chega à indiferença de um pai para com uma filha.
Aquele sentimento de que as vezes, porque você mora em uma grande cidade e se vira sozinha e acredita que não existe mais – o de que se você mora na minha terra você também é propriedade minha – vem à tona e você não quer acreditar que ele ainda tem a força que tem. A capa do livro, inclusive, fez todo o sentido para mim depois do fim do livro e não posso falar mais nada para que os sentimentos venham à tona a cada capítulo, assim como foi para mim, aqui.
Enfim, Troncos e Barrancos é um romance para refletirmos sobre o quanto nós mulheres já conquistamos, mas o quanto ainda precisa ser conquistado, principalmente quando falamos de Brasil e do quanto ele é enorme, inclusive nas diferenças.
Vamos a alguns trechos do livro:
“Os fantasmas que nos assustam moram em nossa mente, Anahí. A morte é transformação. Somos continuidade.”
“A paixão cega e deixa as pessoas vulneráveis e infantilizadas, muitas vezes reféns de sentimentos destrutivos.”
“Exposto sobre os velhos caminhões enferrujados, jazia um corpo desalmado em ossos de estacas e pele de lona, sem vida, sem magia, sem alegria, rumo à reencarnação.”
“Por essas bandas, só vinga quem tem coragem e sangue nos olhos. Tá vendo aquilo lá cheio de cruz? A morte olha para a gente todos os dias, espiando o peão fraquejar.”
“Todo o dia a gente morre um pouco quando as lembranças ruins apagam os nossos sonhos.”
Sinopse: Uma jovem oprimida pelo pai vivencia uma jornada de conflitos familiares que a levam a viver em uma região de escassez de recursos e degradação ambiental. A história, ambientada na região norte do Brasil, em meio a crimes ambientais, suspense, abusos e todas as angústias comumente enfrentadas pelas mulheres daquela região, traz uma narrativa eletrizante em torno de um enredo investigativo e envolvente, em que a jovem Anahí, protagonista da trama, e o mágico de circo Zion vivenciam um amor proibido que enfrenta preconceitos e padrões morais da época.
Sobre a autora: Luiza Medeiros é brasileira, agente da Polícia Federal e residente em Teresina – Piauí, cidade onde nasceu. Estreia como romancista com a obra Troncos e Barrancos, após escrever contos para coletâneas. É graduada em enfermagem, Direito e pós-graduada em Administração Hospitalar.
Troncos e Barrancos, de Luiza Medeiros, publicado pela Novos Ases, tem 251 páginas e está disponível no formato impresso e digital nas plataformas de e-commerce. Também é parte do catálogo de assinantes do Kindle Unlimited.
Janaína Leme