Eu Já Estive Em “A Arte de cancelar a si mesmo”, escrito por Jacqueline Vargas

Você tem uma filha influencer que tem uma quantidade inesgotável de vídeos sobre ela publicados na internet. Nossa que legal! Mas você já parou para pensar que o ideal seria que não tenhamos todas as memórias da infância? Que até então o nosso cérebro apaga parte das nossas memórias saudavelmente e que se temos vídeos e lembranças eternamente podemos criar uma situação não estudada até então? Foram as palavras de Jacqueline Vargas, autora de “A Arte de Cancelar a Si Mesmo”, que chamaram atenção para isso durante a discussão após a leitura coletiva do livro.
Majô é filha de mãe narcisista, Dona Mirtes, e desde muito cedo tem toda a sua vida retratada na internet. Vale um adendo: Majô tem dois irmãos gêmeos, mas é como se eles praticamente não existissem para essa mãe. Com a chegada da adolescência se vê fazendo coisas que não quer mais como aceitar a um resultado de uma enquete respondida por seus seguidores sugerindo que pinte seu cabelo de verde. Kauane é a vizinha da frente, de mesma idade, introspectiva, que observa Majô da janela, mas evita contato porque dúvida que a perfeição da internet vai querer falar com ela.
Majô vai buscar uma forma de acabar com a vida online porque não aguenta mais a pressão da mãe e dos seguidores, mas não sabe para quem pedir ajuda já que todos pensam que sua vida é perfeita. A junção das duas histórias, de Majô e de Kauane, é uma das partes mais legais do livro, mas tem muitas coisas tão legais quanto. A escrita é perfeita e super atual, principalmente conectada à linguagem com termos que fazem parte da vida dos jovens atualmente.
Uma filha que tem uma mãe que te obriga a “trabalhar” nas redes sociais pode pedir que alguém assuma legalmente sua criação por não querer mais morar com a mãe? Sim, essa questão será abordada na obra. Abuso de vulnerável? Temos aqui também. Aquele pai que está ali em casa, mas é como se estive ausente, também teremos isso na trama. O quanto um breve relacionamento, aquele momento apaixonado de uma adolescente pode mexer com parte de suas decisões para agradar os outros, também temos.
Quem curte redes sociais, games, pode se identificar com Davi que surge na história como melhor amigo de Kauane e sempre que ele aparece, a escrita fica mais geek, cheio de referências ao Reddit, ao Discord, o que mostra o grande trabalho de pesquisa da autora para a escrita. A fala de Kauane também tem um jeito só dela, com muitas tiradas incríveis que mostram o quanto ela é inteligente e perspicaz.
Kauane inclusive começa o livro assim: “crescer é fazer um monte das mesmas coisas, várias vezes, só que com cara diferente. É como um game. Você cumpre todas as etapas de um nível e aí vai para outro que basicamente contém obstáculos muito parecidos, só que, justamente quando você começa a dominar a situação, a assimilar a coreografia, o nível acaba e começa outro.”
“O que eu vou ganhar sendo adulta antes do tempo? Quando eu for adulta, terei outros problemas, os problemas que eu deveria ter nessa idade.”
“O tempo passado só se torna importante quando se mostra como uma oportunidade única que deixamos escapar, e quase nunca, na hora, aparece um aviso, um alerta na agenda ou um direct de um infeliz para te cutucar e lembrar: agarra essa bagaça!”
“Eles se entreolham desanimados como se fossem turistas que tivessem perdido o direito de voar pela business e agora teriam que se espremer na economia.”
“Se a gente fica registrando tudo pra guardar pro futuro e poder rever um dia e lembrar, … não vai dar tempo porque precisaria de outra vida para rever a quantidade de coisas que arquivou, certo?”
“Ela tinha medo, porque era apavorante ser verdadeiro. Ao sermos verdadeiros, corremos o risco de não sermos iguais.”
Sinopse: Majô, uma YouTuber famosa desaparece. Muitos boatos e possibilidades surgem: sequestro, pais abusivos, golpe de marketing, fuga desesperada. Ninguém sabe o que aconteceu e todos querem saber, inclusive Kauane, uma nerd cheia de fobias que mora diante de Majô. Num domingo chuvoso a jovem descobre que a famosa está escondida na edícula da sua casa e seus planos são: apagar tudo o que fez desde o post zero. Ela quer se cancelar. Kauane quer entender por quê. A partir daí, uma amizade inesperada surge entre elas.
Sobre a autora: Jacqueline Vargas é graduada em Artes Cênicas pela Uni-Rio, com pós-graduação em Educação pela UERJ, Jacqueline é escritora e psicanalista. Escreve para audiovisual há mais de 20 anos. Durante esse tempo escreveu séries, realities, novelas e filmes. Entre eles Floribella, Malhação, Maria Magdaleña, Predestinado, TPM – meu amor e As Polacas. No entanto, foi em Sessão de Terapia, sua série mais longa, que passou também a se dedicar a psicanálise. Após seus estudos no Instituto Sedes Sapientiae e formação no Centro de Estudos Psicanalíticos, vem direcionando seu aprendizado para a adolescência. Atualmente concluiu a Pós em Filosofia, Psicanálise e Cultura pela PUC.
“A Arte de Cancelar a Si Mesmo – é o canto do rouxinol azul”, escrito por Jacqueline Vargas tem 214 páginas e está a venda no formato impresso e digital nas plataformas de e-commerce. Disponível no catálogo para assinantes do Kindle Unlimited. Vale destacar que esse é o primeiro livro de uma trilogia que está em produção com a autora. Mas, as histórias são independentes. “A Arte de Cancelar a Si Mesmo” tem começo, meio e fim, mas trouxemos essa informação só para deixar um gostinho de quero mais e manter as redes sociais da autora no radar para mais novidades.
Janaína Leme