Eu Já Estive Em “As quatro vidas de Daiyu”, de Jenny Tinghui Zhang, publicado pela editora Vestígio

Você já sabe que a história promete quando nas primeiras linhas a autora já traz: “quando me sequestraram, tenho 13 anos e estou no meio do mercado de peixes de Zhifu”. Ou seja, lá vem perrengue. Pensando que Daiyu tem quatro vidas, como diz o título, lá vamos nós nos preparar para muitos perrengues.
Em “As quatro vidas de Daiyu”, de Jenny Tinghui Zhang, a protagonista, Lin Daiyu é quem dá voz aos capítulos. Ela sempre odiou seu nome, pois segundo ela, recebeu o nome de uma tragédia. Ela não desejava ser melancólica e não queria morrer devido a um coração partido. Ela vivia com seus pais e sua avó, mas isso já é passado porque como dito, o livro já começa com seu sequestro e o livro segue assim, com alguns capítulos retomando o passado e outros com a dura realidade de Daiyu.
Sem querer dar spoilers, mas todo o aprendizado de Daiyu – que já não é mais uma menina neste momento – com a caligrafia encanta a cada momento e é tão profundo que é algo que a protagonista vai levar para toda a trama e eu para a vida, como, por exemplo, em “o artista também era responsável por manter seu interior equilibrado para criar uma boa caligrafia”.
“Na caligrafia é preciso respeitar o que se escreve e para quem se escreve. Acima de tudo, é preciso respeitar a si mesmo. É a tarefa monumental de criar unidade entre quem você é e quem poderia ser”.
“Na caligrafia, como na vida, não retocamos pinceladas, mestre Wang costumava dizer. Temos que aceitar que o que está feito está feito”.
E tudo isso dito até aqui estão nas primeiras 60 páginas do livro. Daiyu vai sofrer muito, não tem como te privar dessa informação. Mas o quanto ela tira força relembrando tudo o que aprendeu em cada uma das situações da sua vida e toda a vontade de voltar para casa é algo sem tamanho. E o maior aprendizado do livro: ela traz as suas versões do que é ser um homem. A visão de uma mulher que tem que fingir ser um homem para sobreviver, deixar toda a sua feminilidade de lado, estar sempre vestida e se portando como um homem. As análises que ela faz como mulher na pele de um homem são tocantes.
“Houve um tempo em que me tornar mulher, me tornar adulta, era algo que eu ansiava. Agora que finalmente era uma, aquilo só tornava tudo muito mais difícil”.
“Estou começando a me dar conta de que todo mundo tem duas caras: a que mostra ao mundo e a interna, que guarda todos os segredos”.
“Não existe isso de sorte, retruquei. Sorte é o encontro da prontidão com a oportunidade”.
Sinopse: China, 1882. Daiyu é uma menina que recebe o nome de uma trágica heroína folclórica. Ela mora com os pais e a avó em uma pequena vila, onde leva uma vida tranquila e feliz. Quando seus pais são presos e mortos por desafiarem o governo, Daiyu é obrigada a fugir para a cidade vizinha de Zhifu para não ter o mesmo destino. Por algum tempo, Daiyu consegue sobreviver disfarçada como um menino órfão chamado Feng e trabalhar para um mestre de caligrafia. Mas seu destino muda novamente quando ela é sequestrada e forçada a aprender o inglês antes de ser contrabandeada para os Estados Unidos. Chegando lá, precisa novamente encontrar estratégias de sobrevivência ao mesmo tempo em que se apaixona e acredita que enfim conseguirá ser livre. Mas são tempos terríveis no novo país e Daiyu é confrontada com a dura realidade da violência contra os imigrantes chineses, que coloca em risco a segurança de seus amigos e sua própria vida. As quatro vidas de Daiyu é um romance arrebatador sobre amor, preconceito e sobrevivência que emociona do começo ao fim.
Jenny Tinghui Zhang é uma escritora sino-americana, eleita pela National Book Foundation uma das 5 autoras com menos de 35 anos com mais potencial de transformar o cenário literário nos próximos anos. Seus textos de ficção e não ficção já foram publicados em veículos como Apogee, Ninth Letter, Passages North, Catapult, Rumpus, HuffPost e Cut, entre outros. Tem mestrado em Belas-Artes pela Universidade de Wyoming e recebeu apoio de Kundiman, Tin House e VONA/Voices. Nasceu em Changchun, China, mas foi criada em Austin, Texas, onde mora hoje. Este é seu romance de estreia.
“As quatro vidas de Daiyu”, de Jenny Tinghui Zhang, publicado pela Vestígio, tem 350 páginas e está à venda nas livrarias de todo o Brasil, assim como nas plataformas de e-commerce, no formato impresso e digital.