Eu Já Estive Em “Na Fresta entre os Mundos”, de Eliane Borges

Na primeira página da história, a autora cita: “essa história é uma incursão imaginária em um mundo que nasce da terra, que ama a terra, que a vê, a vive e a sente como a mãe de todos os seres da vida.”
Hoje vamos falar sobre “Na Fresta entre os Mundos”, livro de Eliane Borges, do qual participamos da leitura coletiva organizada pela LC Agência de Comunicação.
Luísa mora no Rio de Janeiro e ama a Biblioteca Nacional, encontra uma amiga no metrô e avisa: estou indo morar na California. Um relacionamento que deu ruim é o ponta pé que faltava para Luísa concretizar seus planos de fotografar no deserto americano, fazer um doutorado sanduíche, como ela mesmo explica – estuda e faz a tese na California e volta para defender no Brasil.
O foco de Luísa é produzir retratos das mulheres da comunidade, das indígenas, nas quais elas decidiriam como se apresentar, como se mostrar à câmera.
Na Califórnia, Matheus e Fernando serão seus companheiros de projeto e com o passar do tempo, confidentes. Já no capítulo 3, Castañeda surge na história e vai permear praticamente os capítulos daqui por diante. Ele foi um antropólogo que, quando estudante, para fazer a tese de antropologia, foi estudar o uso de plantas alucinógenas entre os indígenas do Arizona. Lá, encontrou e se tornou discípulo de conhecimento de D.Juan, o mestre que o iniciou na arte da feitiçaria, ou da magia. Escreveu, a partir de suas experiências, vários livros, descrevendo todo o processo de aprendizagem, até abandonar o trabalho na universidade e decidir, ele mesmo, se tornar um feiticeiro (trecho retirado da página 49).
Luísa leu seus livros, está relendo durante a viagem, inclusive, mas Fernando não concorda com tudo tanto assim. Ou seja, o assunto vai ser motivo de longas conversas entre eles.
Também tem Maria, que tem algo que poderia ou gostaria de pudesse ser considerado um relacionamento com Matheus. É uma mulher indígena que quer muito estudar e ter uma profissão e luta para manter a tradição, mas também adquirir conhecimento. Ela vai ser assistente de Luísa, quando assim conseguir atuar.
Dividido em 13 capítulos e mais dois denominados “Depois de tudo” e “Depois, mesmo”, essa é uma leitura que mescla espiritualidade, autoconhecimento, ancestralidade, viagens, todo o aprendizado cultural de morar em outro país e não deixar sua essência de lado. E uma sacada bem interessante da autora: durante toda a viagem Luísa faz seu diário de viagem e nós vamos lendo esse conteúdo com a trama. Senti toda a história bem introspectiva, como Luísa. Um conteúdo de muito aprendizado que faz você refletir em muitos momentos. Para mim foram muitas as frases da autora que me fizeram refletir, em especial no fim quando ela fala um pouco sobre morte, sobre ser uma outlier, alguém fora do contexto.
“A mulher de rosto enrugado, por sua vez, representa as mulheres de todas as idades, ou todas as idades das mulheres, aquelas que ela viveu e guarda em si, camada a camada. Tempo, tempo…”
“A fotografia é então um pedaço do que existe no momento do olhar.”
“Estou sempre longe e sempre perto. Não tenho muitas raízes. Cresci assim. Qualquer lugar me serve, vou me adaptando. Eu sou meia sem forma.”
“A Natureza parece o elo perdido, o elo que estamos perdendo. Mas, ao final, ela é que sempre vence, e nosso destino está atrelado a ela.”
“O que é recorrente, rotineiro, sempre presente, aparentemente deixa de ser notado, em geral.”
“Era a rotina, que nem sempre era tão rotina. E, no trabalho de campo muita coisa não sai como planejada, por uma razão bem simples: trabalha-se com pessoas, que são tantas vezes imprevistas.”
Sinopse: Situado no Brasil dos anos 1980, a narrativa segue Luísa, uma antropóloga que viaja ao deserto de Novo México, na Califórnia, para realizar sua pesquisa de doutorado. Lá, ela se conecta aos conhecimentos ancestrais de uma tribo indígena e percebe uma fresta que separa dois mundos. Questionando o real e o imaginário, Luísa e seus colegas passam a refletir sobre o universo, a vida, as relações interpessoais e a conexão das pessoas com o planeta. Em “Na Fresta entre os Mundos”, a professora e escritora Eliane Borges narra uma jornada de autodescoberta, conexão cultural e a busca incessante por respostas ocultas. Um convite a quem deseja se perder (e encontrar) em universos além da imaginação.
Sobre a autora: Nascida no Sul do Brasil, em Santa Catarina, Eliane Borges é professora universitária em Juiz de Fora, na área de Mídias e Educação. Tem o privilégio de viajar com frequência, o que a tem possibilitado desenvolver maior sensibilidade sobre diferentes culturas e linguagens. A fotografia e o cinema são seus grandes interesses, sem deixar de lado a paixão pela palavra e pelos livros, que começou em sua vida, num tempo em que não tem memória. Sempre em movimento, acionada pela imaginação, na ciência ou no desejo de arte, e, a ela, só importam os caminhos do coração.
“Na Fresta entre os mundos”, de Eliane Borges, está à venda nas plataformas de E-commerce no formato impresso e quem for assinante Kindle Unlimited tem acesso ao conteúdo gratuitamente.
Janaína Leme