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Adeus Sapiens (James Marins): ficção científica, crise climática e a despedida do Homo economicus

Se você acha que “Adeus Sapiens” é só sobre o fim da humanidade, prepare-se: o livro de James Marins é, na verdade, sobre dar adeus a um tipo específico de ser humano — aquele movido por ganância, competição e acumulação sem fim. E, ao mesmo tempo, é um convite para darmos boas-vindas a outro tipo de consciência: mais empática, mais conectada, mais responsável.

O livro tem prefácio de Gisele Mirabai e está estruturado em quatro partes, cada uma funcionando como um pilar conceitual: Nós não somos melhores do que o mundo em que vivemos; Nós somos iguais às médias de nossas consciências; Cada molécula, cada átomo, cada consciência estão interligados e Cada vez que um único ser humano avançar na direção do amor e da compaixão, com ele avançará toda a humanidade.

A trama acompanha William, um jornalista investigativo do mundo das finanças, vencedor do Prêmio Pulitzer, com um ego ácido e egoísta — a personificação do *Homo economicus*. Após ter sua visão de mundo desafiada, ele oscila entre defender bilionários e se transformar em alguém consciente e sensibilizado para a gigantesca tragédia socioclimática ao redor.

Como talvez uma única geração humana não seja suficiente para compreender e transformar uma crise de tamanha magnitude, William terá uma “prorrogação”. E é aí que a narrativa se abre para ficção científica, história, política e filosofia.

Apesar de ser uma obra de ficção, *Adeus Sapiens* amarra elementos reais: o Relatório Brundtland (divulgado pela ONU), a ideia de que esquecer é um mecanismo de defesa psíquica, e até referências a tecnologias em desenvolvimento, como o VTOL (veículo de decolagem e pouso vertical, que já existe e está sendo testado).

O livro também joga luz sobre contradições do nosso tempo: defendemos o planeta de ameaças cosmológicas, mas não conseguimos nos defender de nós mesmos. Discutimos emergência climática enquanto mantemos estruturas que alimentam desigualdade, extração sem limites e consumo desenfreado.

Homo economicus X Homo empathicus

Um dos fios condutores da obra é a disputa entre dois “tipos” de humanidade. O *Homo economicus* é aquele que se move por competição, lucro, acúmulo e individualismo. Já o *Homo empathicus* seria o humano capaz de empatia, colaboração, compaixão e consciência sistêmica. O livro não romantiza a transformação. Ele provoca: *”Se você pudesse viver eternamente, seria uma pessoa melhor?”* Porque a questão não é só de tempo — é de consciência. E de coragem para romper com padrões que nos trouxeram até aqui, mas que claramente não nos levarão adiante com dignidade.

Entre tantas passagens, uma se destaca pela delicadeza e pela sabedoria: “Às vezes, assim como o chá quente, é preciso fazer o mesmo com as palavras e aguardar, com sabedoria, que se amenizem, antes de experimentá-las. Palavras ferventes, assim como o chá, podem ferir, se não esperamos que esfriem antes de proferi-las”.

“Adeus Sapiens” é indicado para quem gosta de ficção científica que dialoga com história, política, economia e filosofia. Não é uma leitura “leve” ou de entretenimento descompromissado. É um livro que provoca, incomoda e convida a repensar escolhas — individuais e coletivas. James Marins nos coloca diante de uma escolha que não é só dos personagens — é nossa também: a humanidade muda por consciência… ou só muda por choque?

James Marins nasceu em Curitiba, entre as araucárias quase extintas do Paraná (e essa informação já diz muito sobre o livro). Ele é doutor pela PUC-SP, com pós-doutorado em Direito do Estado pela Universidade de Barcelona, e tem uma trajetória que combina academia, ativismo e empreendedorismo de impacto social. Publicou mais de dez livros e uma centena de artigos no Brasil e no exterior. Entre suas obras está “A Era do Impacto”, que inspirou o documentário *Muito além do lucro*, dirigido por Mara Mourão. Ele também organizou o livro coletivo de mesmo título e foi coautor de *Empreendedorismo social e inovação social no contexto brasileiro* (PUCPRESS), finalista do Prêmio Jabuti na categoria Economia Criativa. Fundador do Instituto Legado, James atua há mais de uma década em transformações sociais e ambientais por todo o Brasil. Velejador de almas e oceanos, já navegou por dezoito países, centenas de ilhas e três continentes. Segundo ele próprio, em cada travessia segue buscando na Humanidade aquilo que nunca deveria ter perdido: sua essência.

Disponível nas plataformas de e-commerce e publicado pela editora Ibis Libris.

Janaína Leme

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