John Ruskin questiona a economia política em obra inédita em português

Em tempos marcados por debates sobre desigualdade, trabalho, desenvolvimento, crise ambiental e bem-estar social, a pergunta sobre o que torna uma sociedade verdadeiramente rica segue tão urgente quanto no século XIX. Muito antes de esses temas ocuparem o centro das discussões contemporâneas, John Ruskin já questionava a ideia de que a riqueza pudesse ser medida apenas pela acumulação material. É esse pensamento que chega agora ao leitor brasileiro em A este último: quatro ensaios sobre os princípios fundamentais da economia política, lançamento da Editora Unesp. Organizada e apresentada por Claudio Silveira Amaral, com tradução de Patrícia Freitas dos Santos, a obra reúne textos publicados originalmente no começo da década de 1860 no periódico londrino Cornhill Magazine. Os ensaios marcam a incursão do crítico de arte inglês na crítica social e chegam agora em sua primeira tradução ao português.
No livro, Ruskin propõe uma reavaliação filosófica das prioridades sociais no contexto da consolidação do capitalismo de livre mercado durante a Segunda Revolução Industrial. Para isso, questiona pensadores como Adam Smith, David Ricardo e John Stuart Mill, usando-os como contraponto para criticar e reinventar conceitos centrais da economia política, como valor, riqueza, justiça e trabalho. Para Ruskin, a economia não poderia ser pensada apenas a partir do interesse próprio ou da acumulação material. Em estilo agudo, atravessado por referências clássicas e bíblicas, ele defende uma economia fundamentada na moralidade e na justiça, opondo-se à exploração e à ideia de que o interesse individual seja o único motor das ações humanas.
“A este último continua sendo um dos trabalhos mais influentes de Ruskin, e ele se orgulhava de seus ensinamentos”, escreve na introdução à edição brasileira Christopher Donaldson, da Lancaster University. “Ele alegou que a obra continha ‘as melhores coisas, isto é, as mais verdadeiras, mais acuradamente formuladas e mais produtivas que já escrevi’. Muitas outras figuras notáveis da história mundial encontraram inspiração nessas ‘coisas produtivas’. Mahatma Gandhi, por exemplo, lembra-se de ter sido ‘tomado’ por A este último enquanto fazia uma viagem de trem de vinte e quatro horas atravessando a África do Sul, em 1904.”
A atualidade da obra está também nas propostas formuladas pelo autor em meio ao avanço industrial do século XIX. Ruskin defende o estabelecimento de salários mínimos, a oferta de educação universal e a criação de redes de segurança social, além de alertar para os impactos que a industrialização poderia provocar sobre o meio ambiente. É neste livro que Ruskin escreve uma de suas frases mais conhecidas: “Não há riqueza exceto a vida”. A formulação sintetiza a dimensão ética de seus ensaios: uma sociedade verdadeiramente rica não é aquela que apenas acumula bens, mas aquela em que todos podem viver bem.
“A importância de John Ruskin à crítica da arte e da arquitetura mais do que se confirma. O pensamento ruskiniano resistiu porque, à frente de seu tempo, permanece instigante nos dias atuais”, anota, na apresentação, o professor da Unesp e organizador do volume, Claudio Silveira Amaral. “A cada consulta e pesquisa, renova-se a importância de sua obra para a crítica da arte e do trabalho, nestes tempos de grandes transformações econômico-políticas, sociais e estéticas.”
Sobre o autor – John Ruskin (1819-1900) foi um influente crítico de arte, de arquitetura e de cultura inglês. Em sua atuação como intelectual público, foi um exemplo paradigmático do “sábio vitoriano”, um polemista versátil e de refinado estilo literário que intervém no debate buscando instruir seus leitores e mobilizar mudanças culturais e sociais. Ruskin é também considerado um precursor do pensamento ecológico, em grande parte por suas análises críticas à nascente economia industrial de mercado, dentre as quais os ensaios de A este último são o ponto alto.
Título: A este último: quatro ensaios sobre os princípios fundamentais da economia política
Autor: John Ruskin
Organização e apresentação: Claudio Silveira Amaral
Tradução: Patrícia Freitas dos Santos
Número de páginas: 144
Formato: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 59
ISBN: 978-65-5711-351-6