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Entrevista: Vanessa Vascouto conta mais sobre a obra Terra Dentro

Hoje vamos falar sobre o livro Terra Dentro, escrito por Vanessa Vascouto. Segundo a escritora Nara Vidal, como descreve a obra, Terra Dentro é uma leitura que perturba e nos acorda, da mesma forma que seduz.

Terra Dentro conta a história de Mosquito, Rita e Mirna, três filhos e, também, três irmãos que contam de forma árida seus pontos de vistas a história de um faroeste em nome do amor. É daqueles livros que você lê numa tacada só, mas é de uma densidade sem tamanho. Você se envolve na escrita e quer entender como vai terminar a todo custo.

Os capítulos são apresentados pelo nome das personagens, ora é Mosquito, ora é Rita, ora é Mirna que conta sua visão do que está acontecendo na história. Tem morte, tem incêndio, tem muitos ocorridos, situações que podem parecer ficção nas páginas de um livro, mas que sabemos que há muita realidade por trás de tudo isso.

Vanessa Vascouto conta ao Eu Já Estive Em mais sobre obra.

De onde saiu a inspiração para a obra?
Saiu de uma história que ouvi da caseira de um pequeno sítio que frequento desde o fim dos anos 2000. Ela seria a Rita dessa minha versão e foi também a maior vítima do incidente que ela narrou e que eu escolhi para mover o livro. A história era certamente inspiradora, mas o modo como ela trouxe os acontecimentos dessa tragédia, que marcou a vida dela e do irmão, também: um jeito muito simples e sereno de falar versus uma gama de sentimentos muito difíceis e complexos. Para mim, ficou o desafio de fazer com que, no papel, uma coisa não limitasse a outra e de preencher as lacunas para formar o quadro total desse enredo. Mantive a relação dela com o Mosquito precisamente como ela contou, mas todo o resto (o cenário, a Mirna, a relação da Rita com a gravidez, o destino de basicamente todos os personagens, por exemplo) é criação.  

Como foi o processo de escrita, para escrever de uma forma tão peculiar (como eles falam mesmo), pensando nas expressões corretas?

Como o livro foi escrito ao longo de dez anos, praticamente, tive muito tempo para ouvir e registrar essas vozes e nisso o teatro ajudou demais. Foi nele que essa história começou a ser contada, afinal. Criar esses personagens na dramaturgia exigiu, desde o início, um exercício árduo de atuação: experimentar no corpo, em voz alta, e ir registrando o que cabia e o que não cabia na boca de cada um deles. 

Os acontecimentos que permeiam a história não são os mais felizes, alguma razão em especial para isso?

Não exatamente. Tem mais a ver com a escolha de percorrer o fio da história quase como ela aconteceu na vida real, infelizmente. Mas, claro, tem um tanto da minha visão de mundo que passa um pouco por querer tratar de impossibilidades sob uma ótica interna, ou seja, como as impossibilidades (do amor, da terra, de um filho, da vida em sua plenitude) se manifesta no íntimo das pessoas? Depois, como ela se manifesta nas ações de cada personagem? Dessas perguntas surgem respostas: melancolia, raiva, violência, loucura…  Manifestações de falta.

Inicialmente Terra Dentro foi escrito para a dramaturgia, e claramente dá para ver uma peça teatral neste texto, por exemplo. Existe essa possibilidade?

Olha, se alguém se encorajar a adaptar eu vou ficar contente. Agora, eu como dramaturga, roteirista ou diretora dessa história, acho bem pouco provável. 

Em que você buscou inspiração para criar a família e a “briga” entre as famílias vizinhas?

Na realidade – ela quase sempre dá um banho na ficção. Mas a estrutura dos personagens e o motivo da briga é bem próxima da história que a caseira me contou realmente e serviu como fio condutor para toda a criação.

Você também escreveu Água Fria e Areia. Conte um pouco sobre esse trabalho, por favor.

Água fria e areia foi um exercício de escrita e um expurgo. É um livro que fala de um relacionamento à distância baseado na história de uma amiga, um romance que eu sempre quis ficcionalizar. Ela conheceu um francês numa época em que morou em Lyon e teve com ele um breve envolvimento que ela tentou resgatar muitas vezes depois e nunca foi possível. A história virou uma sequência de desencontros ao longo de muitos anos e é disso que o livro trata, dos sentimentos e das expectativas que recheiam uma relação que não acontece. 

A Árvore e a Nãna, seu próximo trabalho, é direcionado para o público juvenil, é a primeira vez que escreverá para eles? Qual sua expectativa?

Sim, é a primeira vez. É uma fábula, mas é uma história sem limite de idade. A temática é bastante adulta até, trata-se de um dilema de compaixão entre uma moça e uma árvore, mas por conta da linguagem o livro acabou ganhando esse caráter juvenil e eu gostei de desenvolvê-lo dessa maneira. Se tem uma forma que eu acredite de todo coração ser capaz de impactar positivamente o futuro, essa forma é a literatura acessível para os jovens. Pensar que eu posso, por meio dessa história, inspirar valores que acho importantes, me deixa muito esperançosa – e esse é um sentimento que, hoje, é preciso nutrir. 

Qual sua opinião sobre ser uma escritora brasileira?

Tirando as dificuldades externas – as engrenagens do mercado e a política de forma mais geral, que, aqui, não facilitam em nada para o autor nem para a cadeia produtiva do livro, não acho que seja diferente de ser escritora em qualquer outro lugar. Penso que escrever seja sempre uma luta: contra si e em prol de si, contra o mundo e em prol do mundo, contra os outros e em prol dos outros. É andar nesse limiar.

Vanessa Vascouto é de Chapecó (SC), tem 37 anos e vive em São Paulo. Terra Dentro é sua segunda publicação. A primeira, “Água fria e areia” (Lamparina Luminosa), foi lançada em 2018 e está em processo de adaptação para o cinema. Vanessa também foi finalista do Prêmio Barco a Vapor (2018) com o infantojuvenil “A Árvore e a Nãna” (publicação prevista para agosto/2021).

Título: Terra Dentro
ISBN: 978-65-88091-07-4
Autora: Vanessa Vascouto
Número da edição:
Número de páginas: 96
Formato: 12 X 19 cm
Valor: R$36,00
Venda: https://editorareformatorio.minhalojanouol.com.br/produto/270402/terra-dentro

Janaína Leme

@eujaestiveem

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