Qual é o sentido da vida? Livro questiona trocar o foco no “eu” e propõe o cuidado com o outro e o servir ao coletivo

Em um tempo marcado pelo culto ao “eu” e pela centralidade do indivíduo, o psicoterapeuta junguianoGeraldo Araujo propõe um deslocamento de perspectiva em “Vir-a-Ser para Ser-Vir-a: Uma Breve Reflexão sobre a Finalidade do Viver”. Em seu livro de estreia, o autor convida o leitor a ultrapassar a superficialidade do “espírito da nossa época” e a investigar, em profundidade, o sentido da existência.
A obra teve origem de forma despretensiosa, como uma anotação em um aplicativo de notas na virada de 2021 para 2022, mas carrega uma reflexão amadurecida ao longo de décadas. Sua base remonta à infância do autor, marcada por um ensinamento de sua mãe, Dona Ilda: “Quem não vive para servir não serve para viver.” A frase, guardada na memória, tornou-se o eixo conceitual do livro, articulado com fundamentos da psicologia analítica de Carl Gustav Jung e da psicologia arquetípica de James Hillman.
“Só quando este texto insistiu em vir, consegui reparar na grandeza e profundidade desse ‘aforismo psicológico’ dito por uma pessoa que guardava em sua alma uma sabedoria empírica invejável”, afirma Araujo.
Estruturado em duas partes, o livro conduz o leitor de um diagnóstico crítico a uma proposição de caminho. Na primeira, o autor discute as “questões que nos afastam das demandas da alma (psique)”, como a adaptação acrítica às convenções sociais, a ilusão do ego heroico e o antropocentrismo — entendido como a tendência de colocar o ser humano como medida de todas as coisas. Na segunda parte, apresenta um contraponto a esse movimento, explorando ideias como a interconexão entre os seres (“In Lak’ech Ala k’in — Eu sou o outro você”), a noção de anima mundi (alma do mundo) e a existência de um telos, uma finalidade que se manifesta no mistério da vida.
Com linguagem acessível, distante do academicismo, Araujo articula teoria e experiência ao recorrer a cenas de cinema, mitologia grega, letras de Raul Seixas e episódios pessoais. Entre eles, relata três acidentes graves dos quais saiu ileso, eventos que interpreta como parte de uma “trama misteriosa” que escapa à razão. Para o autor, reconhecer essa dimensão é fundamental: “O antropocentrismo é um dificultador de enxergarmos além da subjetividade”, afirma, acrescentando que não temos uma alma, mas sim que “estamos na alma”.
A obra também se configura como gesto de reparação afetiva. “Depois que terminei de escrever, dei-me conta que o livro é um tipo de reparação histórica e afetiva em relação à minha mãe. Não tive a oportunidade de ofertá-lo, em termos de agradecimento, a ela enquanto estava viva, mas agora tento fazer essa reparação”, revela. E conclui: “Reconheço que minha mãe é coautora deste texto, e sou grato por isso. Assim como me deu à luz, ela concedeu também esta obra, de certa forma.”
O prefácio, assinado pela professora e especialista em Jung, Lilian Wurzba, reforça essa dimensão sensível ao comparar a leitura à escuta de histórias enquanto se costura uma colcha de retalhos, na qual “memórias, vivências e cinema” são entrelaçados pelo fio da psicologia junguiana.
Da carreira no banco à escuta da alma
A trajetória de Geraldo Araujo dialoga diretamente com as ideias que propõe. Nascido em Uruguaiana (RS) e criado em Alegrete (RS), construiu carreira de 34 anos no Banco do Brasil, onde ingressou aos 14 anos como Menor Auxiliar de Serviços Gerais e se aposentou em 2014, após atuar na Direção Geral da instituição em Brasília.
Paralelamente, aprofundou-se na psicologia analítica até realizar uma transição completa de carreira. Desde 2009, dedica-se à psicoterapia, com atendimentos presenciais e on-line. Sobre essa mudança, comenta sua própria surpresa ao sair de um universo predominantemente racional para escrever “sobre a finalidade do viver, sob o guarda-chuva da teoria de uma psicologia complexa”.
Radicado em Brasília desde 1998, Araujo é psicoterapeuta junguiano, educador e autor estreante. Sua formação inclui pós-graduações em Psicologia Junguiana e em Dependências, Abusos e Compulsões.
Ficha técnica
Título: Vir-a-Ser para Ser-Vir-a: Uma Breve Reflexão sobre a Finalidade do Viver
Autor: Geraldo Araujo
Prefácio: Lilian Wurzba
Edição: 1ª ed. Brasília, DF: Ed. do autor, 2026
ISBN: 978-65-01-61999-6
Contato: www.temenos.com.br |@temenospiscoterapia