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Eu Já Estive Em “Um Lugar Chamado Pambenil”, de Moacir Valle Jr

Sempre que leio um livro de ficção fico a cada capítulo tentando formular qual vai ser o fim. E, por mais que tenha tentado fazer isso nas 286 páginas de “Um Lugar Chamado Pambenil”, foi impossível descobrir o que acontece com Xerxes – o personagem principal – o que faz desse um dos livros mais intrigantes que já li. A obra é complexa, sim! Se você é daqueles que quer entender tudo no primeiro capítulo, esquece! Mas, conforme os capítulos vão seguindo tudo passa a começar ter um sentido, até a metade da obra, onde tudo muda drasticamente e você coloca as mãos na cabeça e fala: Meu Deus!

Sendo mais direta, “Um lugar chamado Pambenil” conta a história de Xerxes que tem um grave problema: seu cérebro não retém fatos recentes. Cinéfilo patológico, ele relaciona tudo o que vive a filmes e novelas de que se lembra. Por orientação médica, exercita sua memória escrevendo sobre sua antiga paixão pelo futebol, detendo-se na trajetória da Ponte Preta em 1977. Enquanto isso, ele se envolve na busca de um boticário desaparecido num obscuro vilarejo perdido no tempo. Alternando pontos de vista narrativos, o ritmo e a linguagem pop amarram o leitor ao atormentado protagonista em sua alucinante viagem no tempo, reescrevendo a mítica decisão de 1977 e revivendo filmes e novelas clássicos de várias décadas.

Como a memória de Xerxes se faz baseada em filmes e eventos que marcaram sua vida, o leitor encontra 163 diferentes referências a filmes principalmente, mas também algumas novelas, programas de TV e músicas que marcaram época e a memória do personagem. Mas não são simples referências, elas estão conectadas com a história a ponto de, se você realmente viu o filme, pode entender melhor o que se passa na cabeça de Xerxes no momento em que o filme e/ou novela é citado.

Moacir Valle Jr é natural de Campinas, reside em Brasília, onde trabalha com inovação. É facilitador de Design Thinking e está a frente do Laboratório de Inovação dos Correios. Já dirigiu peças de teatro em Brasília, São Paulo e Florianópolis. Escreve crônicas no blog Cobra Parada Não Engole Sapo, em geral sobre cinema. Viveu intensamente o futebol dos anos 70, acompanhando muito de perto sua gloriosa Associação Atlética Ponte Preta.

Parte do livro também traz a paixão do autor e de Xerxes pela Ponte Preta, mas ja adianto que parte do time que leu o livro nesta leitura coletiva não gosta de futebol e curtiu o livro também. Teve até quem se motivou a acompanhar mais o esporte por conta da leitura. Eu curto futebol, nada fanática, mas aqui fica meu respeito por quem escreve suas emoções por torcer por um time que nunca na vida ganhou um título.

A Copa do Mundo e a sensação do país parar em dia de jogo da Seleção passam pelo livro também. E por mais que tanto o autor quanto Xerxes sejam apaixonados por futebol, uma analise importante do livro: só o que o fanático quer é exercer sua estupidez defendendo cegamente um time, um partido, ou o que for. Por isso, fanáticos não estão em nenhuma categoria, a não ser a dos boçais.

O autor comenta que é a emoção que faz com que o hipocampo selecione um acontecimento para a memória permanente. Como exemplo Xerxes cita que jamais se lembraria de um tropeção que deu na calçada aos 12 anos se a causa do tropeção não tivesse sido uma ruivinha que chamou sua atenção. A questão da emoção também é parte de uma citação da Dra. Suzanne Corkin: A memória significativa envolve sons, texturas e emoções. Quando a recordamos, um processo criativo monta essas impressões. 

Um parênteses – na página 68 o autor menciona o Rumo, grupo que descobri ao assistir um documentário e passei a pesquisar mais sobre e pude assistir ao show deles em um DVD incrível que ganhamos do autor 🙂

É claro que com esse nome “Um lugar chamado Pambenil”, referencias ao filme “Um lugar chamado Notting Hill”não poderiam faltar entre elas a famosa frase de Hugh Grant “tenho medo de sofrer” quando decide em algum momento do filme não ficar com Julia Roberts. 

Mas o melhor comentário está relacionado ao filme Thelma & Louise e a premissa de que filmes cults sempre têm finais infelizes para que os críticos e cinéfilos curtam. No livro está o questionamento: quem vai ao cinema para saber da realidade? Filme é para deixar a vida melhor.

Como boa parte das reflexões são da década de 70, a viagem do homem à Lua tem suas pinceladas no livro, mas o melhor é a explicação de seu Antonio para não acreditar nisso: se não conseguiram inventar um raio dum saleiro que sai sal, como é que vão conseguir ir para a Lua?.

Entre os devaneios de Xerxes, uma discussão sobre o Eu Profundo também surge: se não guardássemos o Eu Profundo a convivência social seria impossível porque só os tolos acham a sinceridade o máximo. Também teve espaço para analisar a mágoa: quem não guarda mágoa ou é mentiroso ou nunca foi apresentado a si mesmo.

E ainda durante a leitura, deixei marcação ainda no meio do livro, quando o autor cita a Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro. A marcação foi porque eu já estive lá e achei lindo, mas no livro a referência é à novela Casarão, que foi ao ar na Globo em 1976. Mal sabia eu o quanto essa referência ia ser importante no fim do livro.

O livro tem 286 páginas, foi publicado pela editora Viseu. Está disponível na Amazon. Ele foi parte de mais uma das Leituras Coletivas incríveis e animadas promovidas pela LC Agência.

“A arte é a dimensão anárquica da matéria onírica”, Glauber Rocha 

Janaína Leme

@eujaestiveem

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