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Eu Já Estive Em “A viajante inglesa, o senhor dos mares e o imperador na Independência do Brasil”, de Mary Del Priore

“O que acontece quando uma viúva tem que se reinventar, um almirante tem que ganhar batalhas e dinheiro, e um governante tem que construir um país? Os dois primeiros personagens britânicos, observadores apurados do momento de emancipação. O terceiro, um príncipe português, que oscila entre se tornar imperador do Brasil ou voltar para um continente que sacudia as velhas monarquias”. É assim que Mary Del Priore começa apresentando A viajante inglesa, o senhor dos mares e o imperador na Independência do Brasil, publicado pela editora Vestígio.

O livro começa apresentando Maria, a viúva, que viveu em ambiente no qual havia pouca preocupação financeira. É muito interessante ler sobre uma mulher que viajava pelos mares com o marido, podia escrever e pintar e se apresentar como uma artista nessa época. Depois que o companheiro morre, junto com a viuvez veio uma série de dificuldades financeiras o que a fez arregaçar as mangas e trabalhar para ter seu dinheiro e sobreviver. E, por sofrer xenofobia aqui no Brasil, tem, de novo que reconstruir a vida.

Conhecer a história de Thomas Cochrane foi impressionante porque na obra você consegue ter uma noção da complexidade do trabalho de um oficial da Marinha Britânica que que viajou mares, conquistou territórios, apaziguou guerras e fez parte da história do Brasil. Obviamente isso era um trabalho, ou seja, ele combinava suas missões por um montante de dinheiro e foi frustrante ler que, depois de tudo o que ele fez pelo Brasil, teve que brigar para receber o que era seu. Triste ver como tentar passar a perna no outro é algo que se vê há muito tempo por aqui. Preferia estar num país que tenha sido exemplo, mas assim como na história da Maria, que era escrachada pelas funcionárias do imperador, aqui também tentaram passar Cochrane para trás.

O livro traz trechos escritos por Maria: “estamos envolvidos por um mar escuro e violento. Acima de nós, um céu frio, denso e escuro. Medo? Nenhum. Ao contrário: há um prazer em vencer as ondas que parecem irresistíveis e em lutar assim com os elementos, se olha para fora” … Esses trechos são muito importantes para mostrar o quanto Maria escrevia com uma riqueza de detalhes, assim como pode ser observado em sua arte (há fotos que mostram o trabalho de Maria no livro).

Ainda é possível conhecer mais sobre a influencia inglesa no Brasil, a solidão de Leopoldina que tem os livros como únicos amigos, perseguições à imprensa, a importância de Maranhão para nossa história na época do Império, a destituição das pessoas de postos oficiais por amigos e familiares, enfim, episódios que eu queria muito que não fizessem parte da história do meu país, mas fizeram. E o pior, continuam fazendo.

Vamos a alguns trechos do livro:

– “É sem nenhuma exceção o lugar mais sujo que eu tenha estado”. Deixaram a imunda cidade baixa e, numa cadeirinha transportada por dois negros, rumaram para a Cidade Alta. (trecho sobre a chegada de cônsul britânico a Salvador).

– Pedro teve que enfrentar as dívidas do Estado e o caos financeiro que encontrara. O Brasil estava à beira da falência … comecei a fazer bastantes economias, principiando por mim (D. Pedro, sobre o Brasil).

– Conhecer Thomas Alexander Cochrane era ter certeza de que todos os homens não habitavam a terra da mesma maneira.

– E ele sabia que se, nas batalhas, morrer era a coisa mais banal, o importante era saber renascer. E renasceu mais uma vez.

– Ele rapidamente percebeu que o governo brasileiro se assemelhava a outros nas suas democráticas aspirações, mas, também, na relutância em pagar.

– Numa cidade onde a maioria da população era de negros, os estrangeiros se impressionavam com a presença de mulatos em altas posições civis e militares.

– Quem furta pouco é ladrão, quem furta muito é barão, quem mais furta e esconde, passa de barão a visconde.

Sinopse: a viajante inglesa é Maria Graham, esposa de um oficial da Marinha Britânica que veio com o marido para a América do Sul durante as lutas pela independência do Chile e do Brasil, tendo vivido naquele país e no Brasil, em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Maria se dedicava a escrever diários nos quais descrevia paisagens e seus habitantes, e comentava e registrava acontecimentos do cotidiano, sobretudo os de natureza política. O senhor dos mares é Thomas Cochrane, oficial da Marinha Britânica, excelente navegador e estrategista quase invencível. Apelidado de El Diablo, participou fortemente das lutas pela independência do Chile e depois do Brasil. O imperador é D. Pedro I, que declarou a Independência do Brasil. Nesta crônica historiográfica com a qual a historiadora e escritora Mary Del Priore estreia no catálogo da Vestígio, esses três personagens se cruzam e se relacionam como se fossem ficção, mas não sendo: existiram e atuaram por dentro e por trás de fatos verídicos de nossa história, num período interessantíssimo. A aura de romance, de ficção, fica por conta do texto saboroso, fluente e apaixonante com o qual a autora presenteia o leitor.

Mary Del Priore é uma referência para os estudos históricos acerca do Brasil. Com pós-doutorado na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS), de Paris, França, já escreveu mais de 50 livros, multipremiados, Sócia honorária no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), é autora dos volumes de História da gente brasileira e de dezenas de obras que esclarecem fatos e personagens do Brasil, com destaque para a participação feminina na formação do Estado e da nação. Em 2022, foi eleita membro da Academia Paulista de Letras (APL).

A viajante inglesa, o senhor dos mares e o imperador na Independência do Brasil, de Mary Del Priore, tem 224 páginas e está à venda nas livrarias de todo o Brasil, plataformas de e-commerce e no site da Editora Vestígio.

Janaína Leme

@eujaestiveem

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